16 Barbaros, ou Sarrios. Habitavaõ por toda a serra da Arrabida até Lisboa, ou todo aquelle tracto de terra, que fica entre o Tejo, e Setubal. Viviaõ sem ley, sem policia, e com pouca, ou nenhuma Religiaõ. Sustentavaõ-se dos frutos, que a terra produzia, e da caça, que na montanha apanhavaõ. Este modo de viver barbaro, e agreste os fazia taõ rigidos, que naõ só tiveraõ sanguinolentas guerras com os Celtas seus visinhos, mas fizeraõ huma das mayores resistencias, que experimentou Julio Cesar na conquista da Lusitania. No anno 501 antes de Christo, vendo que a patria os naõ podia manter com a sua multiplicaçaõ, determinaraõ que todos os moços até à idade de quarenta annos fossem buscar outras terras desoccupadas, em que viver; e depois de varios transes foraõ cultivar muita parte da Beira, principalmente aquellas terras, que se extendem por algumas leguas à roda do rio Soberbo.[450]

17 Bardulos, ou Vardulos. Habitavaõ onde agora se chama Guipuscoa. Plinio diz, que os Bardulos eraõ os mesmos, que os Turdulos da Lusitania. Baudrand diz, que eraõ diversos huns dos outros.

18 Belitanos. O mesmo que Lusitanos.

19 Berones. Querem alguns[451] conjecturar que habitavaõ na Provincia da Beira, sendo que o Padre Argote[452] naõ convem nisso. Baudrand, e Hoffmani dizem, que eraõ povos sujeitos aos Celtiberos, e a sua principal Cidade era onde hoje está Trejo.

20 Bibalos. Conforme Joaõ de Barros[453] habitavaõ em Val de Bouro na Provincia do Minho. O Padre Argote os situa nas visinhanças de Orense, e fóra do territorio de Portugal;[454] porém Resende he de parecer que a palavra Bibalos naõ era nome de povos, mas de Cidade,[455] porque assim o diz expressamente a inscripçaõ da ponte de Chaves sobre o Tamega, na qual estaõ gravados os nomes dos povos de todas aquellas Comarcas, que concorreraõ para trabalharem nella: mas nisto achamos pouca razaõ a Resende; porque ainda que a tal inscripçaõ diga Civitates X. he sem duvida que as Cidades naõ haviaõ de ir trabalhar na ponte, mas sim os moradores das taes Cidades, os quaes pela mayor parte seriaõ os daquellas visinhanças de Chaves, como bem adverte Frey Bernardo de Brito.[456] Finalmente Baudrand diz, que estiveraõ situados junto do rio Lima.

21 Bracaros. Ficavaõ estes povos na Provincia do Minho, e era nome generico, que abraçava outros muitos povos particulares,[457] e comprehendia povoações muito notaveis, como era Braga, Porto, Ponte de Lima, Neiva, Caminha, e outros.[458]

22 Calaicos. Eraõ de duas especies, Bracarios, e Lucenses: os primeiros existiaõ na Provincia de Tras os Montes, os segundos no Minho, e Reino de Galiza, onde hoje he Compostella.

23 Callenses. Habitavaõ na Cidade de Gaya fronteira ao Porto.

24 Caperenses. Lembraõ-se Resende, e Baudrand por boas conjecturas de existirem estes povos na Estremadura Lusitana entre Merida, e Placencia.[459]

25 Celerinos. Eraõ os povos, que habitavaõ na Cidade Celiobriga, a qual, conforme a indagaçaõ do Padre Argote, ficava ou em Celorico de Basto, ou nas suas visinhanças.[460] Baudrand, allegando a Sanson, julga que os Celerinos eraõ os habitadores de Barcellos. Na ponte de Chaves, mandada fazer pelo Imperador Vespasiano, vem assinados os Celerinos, os quaes eraõ povos daquella Comarca de Chaves, parte dos quaes ficava em Portugal, parte em Galiza.