55 Usavaõ tambem de huma certa especie de pequeno escudo, que mais propriamente era broquel, que adarga, a que chamavaõ Cetras, segundo explica Diogo Mendes de Vasconcellos nos Escolios de Resende; e batendo huns nos outros, faziaõ hum tripudio sonoramente horrivel.[485] Assim cantou delles Silio Italico:[486]

- - - - - -Misit dives Gallæcia pubem,
Barbara nunc patriis ululantem carmina linguis,
Nunc pedis alterno percussa verbere terra,
Ad numerum resonas gaudentem plaudere cetras.

Em parte o quiz imitar Botelho:[487]

Vinieron los Calaicos, a quien lavan
Las dos orlas del Miño difundido,
Y sus antiguas cetras los muravan,
Que servieron un tiempo a su alarido.

Em dizer este Poeta que as cetras, ou escudos os muravaõ, ou cubriaõ todos, naõ se conforma com a advertencia critica de Vasconcellos.

56 Solemnizavaõ com louvores, e festas, a que chamavaõ Gymnopodia, aos que morriaõ pelejando;[488] e nas mayores solemnidades faziaõ o sacrificio das Hecatombas, que era matar cem animaes de huma mesma especie.[489] Adoravaõ a Marte, Minerva, e Hercules; donde parece, (diz de la Clede)[490] que a veneraçaõ, e culto, que elles davaõ a Hercules, póde servir de huma prova da vinda, que este Heroe fez a Portugal, para livrar muitos de seus habitadores da oppressaõ de varios tyrannos, e fundar aquelle famoso Templo no Cabo de S. Vicente, chamado Promontorio Sacro, onde se adorava o Sol com ritos, e ceremonias Egypciacas, e donde o mesmo Hercules se mandou sepultar.

57 Áquellas tres divindades fabulosas offereciaõ em sacrificio as mãos direitas dos seus prizioneiros de guerra, que elles cortavaõ ao pé dos altares; e da observaçaõ, que faziaõ nas abertas entranhas dos mesmos inimigos, prognosticavaõ bons, ou máos successos para as suas batalhas.[491]

58 Nas doenças, e enfermidades servia de Medico todo aquelle, que tinha experiencia do remedio prestante, e concernente à queixa. Para isso costumavaõ expôr os enfermos nas portas das casas, ou nos transitos das ruas, para que o passageiro applicasse o que soubesse, e fosse opportuno pela observaçaõ, que tivesse feito em outra semelhante molestia;[492] e destas bem sortidas experiencias sacou depois Hypocrates documentos, e aforismos admiraveis para a sua medicina.[493]

59 Com estes, e outros usos viviaõ os mais dos Lusitanos na sua primitiva liberdade, quando acontecendo aquella extraordinaria secca, e fome, de que faz mençaõ Justino, e as Historias de Hespanha,[494] poz em incrivel consternaçaõ toda a terra. Despovoou-se o Alentejo, o Algarve, e parte da Estremadura, e foraõ seus habitadores refugiarse nas serras da Beira, e Minho, como mais ferteis, e frescas; outros foraõ para Italia: taõ grande, e continuada foy a calamidade, que padeciaõ, posto que Vaseu duvída muito della.[495]

60 Applacou finalmente o Ceo sua ira, e restituidos à patria os ausentes, e saudosos de tanto tempo, vieraõ tambem entre os nacionaes muitos dos Gallos Celtas. Depois acontecendo pelos annos 1380 do diluvio, conforme Vaseu, aquelle memoravel incendio nos montes Pyreneos, que penetrando até as cavernas da terra, causou horrorosos tremores, e fez descubrir muitas minas de ouro, e prata,[496] divulgou-se a noticia desta fluente riqueza, a qual com a vehemencia da sua virtude attrahindo de taõ longe a ambiçaõ dos Fenices, foy causa de expedirem promptamente huma grosta armada, que aportou na Ilha de Cadiz, e daqui vindo costeando as margens maritimas das nossas terras, ancorou no Algarve.