48 Gerabrica, ou Jerabrica. Segundo a Geografia de Fr. Bernardo de Brito[114] esteve esta Cidade situada onde vemos hoje a Villa de Póvos. Prova-o este Author com o Itinerario de Antonino, o qual assina de Lisboa a Jerabrica trinta mil passos, que fazem as sete leguas, que se contaõ desta Cidade àquella Villa. Porém Gaspar Estaço, Gaspar Barreiros, e Brandaõ mostraõ com o mesmo Itinerario, que Jerabrica foy o que hoje he Alamquer.[115]

49 Lacobriga. Em tempo dos Romanos foy Cidade muy famosa, e lembra-se della Baptista Mantuano,[116] quando diz, que erigira o Senado desta povoaçaõ sete estatuas a Ardiboro, Capitaõ insigne do Imperador Valentiniano, as quaes prostraraõ os Vandalos, quando a tomaraõ. Das suas ruinas se edificou a Cidade de Lagos no Algarve, e neste sitio vemos collocada a sua arrumaçaõ no Mappa de

Ortelio, e de Pomponio Mela, com quem se conforma Vasconcellos,[117] donde parece receber engano Vasco Mousinho de Quevedo, equivocando Lagos com Lamego,[118] e a mesma equivocaçaõ encontro em Gabriel Pereira,[119] porque une os póvos da Serra da Estrella com os de Lacobriga, que sendo Lagos, eraõ Provincias muy distantes. Talvez que tudo proceda de se equivocarem com outra povoaçaõ, que ficava junto de Lamego, porém mais encostada para o mar, a que Ortelio chama Langobrica, que Vasconcellos tem pela Villa da Feira. Ha quem diga que Lacobriga he a Villa de Abrantes, outros do Landroal, e Joaõ de Mariana diz, que he a Villa de Alvor, fundada por Anibal. Parece a outros ser Santiago de Cacem, como diz D. Francisco Manoel na carta 62. da centuria 3.

50 Magneto. Foy na opiniaõ de alguns huma Cidade em tempo de Romanos, e existio onde hoje chamaõ Santa Maria de Meinedo, que he hum Lugar do Bispado do Porto.[120]

51 Merobriga. De duas povoações com este mesmo nome achamos memoria em Portugal: huma no sitio, onde está Montemór o velho; outra em Santiago de Cacem. Consta da Carta Geografica de Abrahaõ Ortelio. Plinio as confunde; porém nosso Resende assenta, que a verdadeira foy onde agora he Santiago de Cacem.[121] Aqui se venera na Matriz a notavel reliquia do Santo Lenho, que D. Bataza lhe deixou. Tambem na escada exterior da casa da Camera se vê a inscripçaõ do famoso Medico Cassio Januario natural de Beja. Resende se persuade, que esta terra fora conquistada aos Mouros por D. Bataza; o que naõ foy assim, como declara Brandaõ na Monarquia liv. 16. cap. 35.

52 Myrtilis Julia. Esteve esta famosa Cidade, e Municipio no sitio de Mertola. He indubitavel. Antonino assina 36000 passos até Béja, que saõ nove leguas das nossas, distancia verdadeira, que ha de huma a outra parte. Quasi todos os Geografos se conformaõ nesta situaçaõ.[122]

53 Moro foy huma antiga Cidade situada nas ribeiras do Tejo, de cujas ruinas a mayor parte dos Geografos dizem se levantou o Castello de Almourol, posto que pela semelhança do nome, parece mais fundaçaõ dos Arabes. Cuidaõ alguns que existira onde agora vemos, ou Punhete, ou Tancos, ou Payo de Pelle. Estrabo no liv. 3. da sua Geografia se lembra della, quando disse que M. Bruto fizera de Moro fronteira para conquistar os Lusitanos.

54 Nabancia. Era huma povoaçaõ, que ficava para a parte do Nascente da Villa de Thomar, onde affirmaõ nascera a gloriosa Virgem, e Martyr Santa Iria.[123] Na divisaõ dos Bispados, que fez Wamba, se lhe dá o nome de Naba,[124] conforme a intelligencia de Argote.

55 Norba Cesarea. O Capitaõ Braz Garcia Mascarenhas, governando a Praça de Alfayates na Beira, diz, que descubrira os claros vestigios desta Cidade entre Alafões, e Salvaterra, e entre os rios Elja, e Ponsul, onde chamaõ os Toulões.[125] Hoje he Alcantara.

56 Numancia. Naõ he facil julgar o verdadeiro sitio desta famosa Cidade pela nimia variedade de opiniões, que achamos nos Escritores. Nenhum melhor que o eruditissimo Argote[126] soube aclarar esta confusaõ, distinguindo tres Cidades com este proprio nome; e com bons fundamentos mostra que nenhuma existio no sitio, em que alguns dos nossos Authores pertendem anciosamente collocalla, que he onde chamaõ Nemaõ, meya legua distante da Villa do Freixo junto ao Douro; e saõ deste parecer Brito, Brandaõ, Cardoso, e Joaõ Salgado de Araujo com mayor tenacidade,[127] a cujos fundamentos responde bem o sobredito Padre Argote.