[537] Argot. Memor. de Brag. liv. 5. cap. 1.

[538] Veja-se ao Padr. Yañes no liv. 2. cap. 27. num. 4. de la Era, y Fechas de España.

[539] Idem part. 1. cap. 19. de la España en la Santa Biblia.

CAPITULO V.
Invasaõ, e dominio dos Mouros.

1 Derrotado, e extincto o exercito dos Godos nas prayas do Guadalete em dia de S. Martinho 11 de Novembro de 714 conforme a melhor computaçaõ,[541] e refugiando-se nas terras de Portugal o infeliz Rey D. Rodrigo, onde passados alguns annos acabou com a morte os seus dias junto a Viseu,[542] entraraõ os Arabes a executar com todo o furor a conquista de Hespanha, vendo-se logo nos seguintes dous annos a mayor parte della, e do nosso Reino sujeita, e subordinada ao dominio barbaro, excepto aquellas porções de Galiza, e Asturias, que pela aspereza de suas brenhas se fizeraõ inaccessiveis às armas dos Africanos.[543]

2 O lastimoso estado, em que se achariaõ nossas terras com aquelle improviso, e accelerado cativeiro, bastantemente se faz crivel, vendo-se em taõ pouco tempo sem liberdade, afflictas, e tributarias a huma Naçaõ barbara, e contraria da Fé Catholica: as Igrejas, e Sacerdotes desprezados com desacatos, e insultos, experimentando estes golpes primeiro que outras aquellas povoações, que estavaõ mais proximas ao Oceano.[544]

3 Havia-se achado na batalha do Guadalete o Infante D. Pelayo, da antiquissma familia dos Hespanhoes Cantabros,[545] que com as breves reliquias de alguns Godos se tinha acolhido às montanhas das Asturias. Passado algum tempo, resentido da violencia, que hum Governador Mouro fizera a huma sua irmã, tomando-a por mulher, estando elle ausente,[546] com o motivo de taõ justa vingança, e de sacudir dos seus hombros, e de seus nacionaes o gravame de tal jugo, convocou, ou se lhe aggregou muita gente valerosa com armas, e petrechos proporcionados à empreza; e depois de o acclamarem Rey no valle de Cangas, ou Covadonga, noticioso Alahor, Governador Arabe, daquella sublevaçaõ, o mandou accommetter com o formidavel exercito de cento e oitenta e sete mil Mouros, aos quaes milagrosamence destruio D. Pelayo.[547]

4 Divulgada a noticia deste primeiro triunfo, respirou o animo dos Christãos dispersos ao mesmo tempo, que se abateo o furor barbaro; e concorrendo ao estrondo deste feliz successo D. Affonso, filho de D. Pedro, Duque de Biscaya, descendente do glorioso Recaredo, Rey Godo,[548] se offereceo com bom numero de Biscainhos a ElRey D. Pelayo, o qual reconhecendo animo, e valor heroico na pessoa de D. Affonso, o desposou com sua filha Ermesenda.

5 D. Affonso agradecido a elle favor, querendo explicar bem o seu zelo, e gratidaõ, entrou poderosamente em Portugal pela Provincia do Minho, e recuperando Braga, Porto, Viseu, Agueda, e outras terras deste Reino, libertando-as da escravidaõ Sarracena, se recolheo vitorioso, deixando com estes triunfos aturdidos os barbaros, que já começavaõ a tratar os nossos mais com algum respeito, e menos oppressaõ.[549]

6 O governo politico se praticava, nomeando o Governador Mouro a hum Conde Christaõ em cada Comarca, o qual sentenciava as causas ordinarias segundo as leys Goticas, excepto a sentença de morte, que só a podia dar o Alcaide dos Mouros, que pouco a pouco foraõ introduzindo, e intimando as suas leys.[550]