81 Para evitar a confusaõ, que havia em contar os annos, pondo-se muitas vezes a Era de Cesar juntamente com o anno de Christo, de que resultavaõ embaraços, e duvidas nos documentos, e escrituras publicas, mandou esquecer, e supprimir aquella antiga, e praticada computaçaõ da Era de Cesar, e que se usasse em todas as escrituras calendar o anno pela Epoca do Nascimento de Christo Senhor nosso, passando para isto huma Ley escrita em 22 de Agosto de 1420,[661] que parece só teve pleno effeito do anno 1422 por diante, conforme o daõ a entender quasi todos os Escritores.[662] Nisto imitou o exemplo delRey D. Joaõ I. de Castella, que tambem havia seguido o delRey de Aragaõ, como dizem Yañes, e o erudito Gerardo Casteel na Controversia 1.

82 Continuando ElRey na boa administraçaõ da Justiça, dando com igualdade o premio, e o castigo a quem o merecia, promulgou leys muy uteis, e mandou observar as que havia feito em lingua vulgar o celebre Joaõ das Regras.[663] Para testimunhas da sua grande devoçaõ sublimou à dignidade Metropolitana a Cathedral de Lisboa por Bulla, que o Papa Bonifacio IX. passou à sua instancia em 10 de Novembro de 1394,[664] servindo de iguaes monumentos da sua piedade a erecçaõ de edificios sacros, como foy o Regio Convento da Batalha, o Mosteiro de Penha-Longa da Ordem de S. Jeronymo, o de S. Francisco de Leiria, o de Santa Clara do Porto, o da Carnota junto de Alenquer, a insigne Igreja de Nossa Senhora da Oliveira em Guimarães, a Igreja de Nossa Senhora da Escada junto à de S. Domingos de Lisboa, e outras muitas fundações, para que concorreo com magnifica generosidade, admittindo tambem no Reino os Conegos Seculares de S. Joaõ Evangelista, chamados commummente os Loyos.[665]

83 Além de obras taõ santas fez outras, ainda que profanas, magestosas, e taes foraõ os Palacios de Lisboa, Santarem, Cintra, e Almeirim. Instituio o tribunal da Relaçaõ, e fez outras doações, e mercês, que depois revogou naõ sem escandalo.[666] Finalmente no dia 14 de Agosto de 1433, a tempo que a terra padecia hum tenebroso eclypse do Sol, exhalou o espirito, deixando de si feliz memoria, e tendo vivido setenta e seis annos, quatro mezes, e tres dias, e reinado quarenta e oito annos, quatro mezes, e oito dias.[667] Foy seu corpo depositado na Igreja da Sé, onde esteve dous mezes, e dez dias, e a 25 de Outubro foy transferido com pompa magestosa em hum carro triunfal até o Convento da Batalha, onde jaz em sumptuosa sepultura, que elegantemente descreve Fr. Luiz de Sousa.[668]

D. Duarte, undecimo Rey.

84 Era o Senhor D. Duarte filho terceiro delRey D. Joaõ I. e havia nascido em Viseu a 31 de Outubro de 1391. Os dotes naturaes, e adquiridos foraõ nelle taõ excellentes, como mal logrados. Foy destrissimo, e singular no exercicio nobre de andar a cavallo; muy eloquente, e vigilante da Religiaõ Christã; grande favorecedor dos homens doutos, como particular professor, e amante das boas letras, em cujo estudo se aproveitou de modo, que pudera ser Mestre. Delle existem alguns Tratados, e fragmentos, irrefragaveis provas do seu juizo, e sciencia.[669]

85 Succedeo a ElRey seu pay, tendo de idade quarenta e hum annos, nove mezes, e quatorze dias,[670] e foy acclamado aos 15 de Agosto de 1433 nos Paços do Castello de Lisboa. Havia casado a 22 de Setembro de 1428 com a Rainha Dona Leonor, Infanta de Aragaõ; e subindo agora ao throno, começou a governar com tanta prudencia, que se dizia delle, (talvez por influxo de lisonja) entendia melhor a arte de reinar, que ElRey seu pay.[671] Mandou reduzir a hum só tomo todas as Leys, que andavaõ dispersas, para facilitar a sua liçaõ: promulgou tambem Leys contra o luxo, embaraçando os excessivos gastos dos Grandes, aos quaes ordenou fossem residir nas suas terras para os livrar da assistencia da Corte, que os obrigava a empenhos,[672] excepto aquelles Fidalgos, que por turno lhe haviaõ de assistir por obrigaçaõ de seus cargos.

85 Neste Monarca naõ houve que desejar senaõ melhor fortuna, porque os unicos cinco annos, que reinou, foraõ todos cheyos de desgraças; e bastava para fazer infausto o tempo do seu reinado o cativeiro do Infante D. Fernando seu irmaõ; porque emprendendo os Infantes D. Henrique, e D. Fernando conquistar aos Mouros a Cidade de Tangere, e ficando vencidos, e prisioneiros no anno de 1437, para salvarem as vidas prometteraõ aos Mouros entregarlhe Ceuta, de cuja palavra ficou em refens dos mais o Infante D. Fernando; porém como os Conselheiros de Portugal foraõ de parecer, que naõ convinha entregar todo hum povo Christaõ ao furor dos barbaros pela liberdade de hum só homem, de cujo acordo dizem que tambem fora o Papa, e o mesmo Infante generoso,[673] determinou-se em Cortes, que para isso fez convocar em Leiria ElRey D. Duarte, ficasse o Infante no cativeiro, onde morreo depois de falecer o mesmo Rey, que todavia no seu testamento mandava se resgatasse o Infante seu irmaõ por todo o dinheiro, e ainda a troco da mesma Cidade de Ceuta.[674]

87 Mons. de la Clede[675] accrescenta, que ElRey D. Duarte sem embargo do que determinaraõ as Cortes, excitado do affecto de seu irmaõ cativo, e da justa paixaõ de se vingar dos barbaros, com o desejo de procurar tambem a liberdade dos Portuguezes, que os infieis retinhaõ em suas infames prizões, mandara pedir ao Papa huma nova Bulla da Cruzada, que se publicou pelas Provincias do Reino, e ajuntando tropas, e apparelhando náos para a expediçaõ desta grande interpreza, foraõ todos os preparos inuteis por causa da peste, que sobreveyo ao Reino, occupando-o de lamentavel consternaçaõ, como bem o descreve Vasco Mousinho no canto 5. do seu admiravel Poema; pois derrubando todas as idéas delRey, o obrigou a andar vagando de Villa em Villa, naõ só para consolar os povos em aperto semelhante com a sua presença, mas para evitar aquelle contagio; até que achando-se na Villa de Thomar, e abrindo huma carta, que vinha inficionada da corrupçaõ venenosa, poz fim aos dias de sua vida afflicta aos 9 de Setembro de 1438, tendo vivido quarenta e seis annos, dez mezes, e nove dias, e reinado cinco annos, e vinte e seis dias.[676] Jaz no Convento da Batalha.

D. Affonso V. duodecimo Rey.

88 Havia nascido o Principe D. Affonso nos Paços de Cintra aos 15 de Janeiro de 1432, e quando morreo seu pay ElRey D. Duarte, contava seis annos, sete mezes, e vinte e cinco dias, e desta idade foy acclamado logo herdeiro da Coroa na Villa de Thomar; porém o governo ficou à disposiçaõ da Rainha Dona Leonor sua mãy, e tutora com a assistencia do Infante D. Pedro, irmaõ delRey D. Duarte, com o titulo de Defensor do Reino, da qual regencia foy depois a Rainha exclusa, e o governo entregue ao Infante D. Pedro, de que se originaraõ tantas perturbações, e de que existem memorias taõ lastimosas.[677]