D. Joseph I. vigesimo quinto Rey.
166 He o Fidelissimo Senhor D. Joseph Monarca presentemente reinante, augusto successor de seu grande Pay D. Joaõ V. Foy acclamado Rey na Cidade de Lisboa em huma segunda feira de tarde aos 7 de Setembro de 1750 com festivos applausos de seus vassallos. Para esta ceremonia chea de grande alegria, se levantou huma varanda magnifica no terreiro do Paço junto a Palacio, a qual começando da sala dos Tedescos, por onde tinha a entrada, rematava no torreaõ do Forte com quarenta palmos de largo, e trezentos e setenta de comprido, sustida em dezaseis altas columnas ligadas com huma balaustrada que fazia face ao mesmo terreiro, e revestido tudo com o mais precioso ornato, que soube idear o bom gosto.
167 Tanto que subio ao Throno, e empunhou o Cetro, fez ver que existia vivamente naõ só na magestade da Pessoa, e clemencia do genio, mas na generosidade das acções, reproduzido o coraçaõ magnanimo de seu memoravel Pay. Este bom conceito annunciaraõ seus vassallos desde o dia 6 de Junho de 1714, em que este Monarca vio a primeira luz do mundo, onde havia ser o primeiro brilhante Astro da esfera Lusitana. Para segurar a successaõ Regia casou em 19 de Janeiro de 1729 com a Serenissima Princeza das Asturias D. Maria Anna Victoria, filha delRey Catholico Filippe V., e da Rainha D. Isabel Farnese sua segunda mulher.
168 Logo nos primeiros passos do seu Reinado mostrou o grande zelo de conservar os seus povos em paz, justiça, e prosperidade: e como estes atributos naõ se podem estabelecer sem o recto manejo de bons Ministros, cuidou em os eleger competentes, e de alta comprehensaõ aos interesses politicos, e economicos do Estado. Com esta providencia se dispozeraõ as negociações da Marinha, do Commercio, e de todos os Tribunaes naquelle melhorado regimen, que o Reino experimenta; ajudando ao bom exito de tudo as justissimas Leys, que em utilidade do bem publico tem promulgado.
169 Para augmentar o Commercio, e Navegaçaõ, de que resultaõ opulencias mayores que as da natureza, ordenou que os despachos fossem promptos, evitando demoras na expediçaõ dos Tribunaes. Exaltou, e renovou o exercicio das bellas letras com a reforma de melhores Methodos; dispondo que fossem educados seus vassallos principalmente os Nobres; fundando para este effeito Collegio onde se aprendaõ todas as uteis, e estimaveis profissões das Artes, abolindo por Decreto de 29 de Julho de 1759 o magisterio aos Jesuitas, e a liçaõ da Arte do Padre Manoel Alvares.
170 Nos extraordinarios accidentes do terremoto, e incendio, que fatalmente destruiraõ Lisboa no anno de 1755, se vio a grandeza do coraçaõ deste augusto Monarca; porque conservando-se inalteravel em hum caso taõ repentino, e horrendo, em que vacilaraõ os mayores talentos, elle se applicou pio, e providente a soccorrer, e acautelar a consternaçaõ, do afflicto Povo: e como se fora pequeno este empenho, intentou d’entre as cinzas de Lisboa abrazada reproduzir outra de novo com mayores vantagens, excedendo nas circustancias a grandeza de Trajano.[737]
171 Com igual constancia de animo tolerou aquelle barbaro desacato, com que a aleivosia, rompendo as obrigações da fidelidade Portugueza, se atreveo a insultar a sua veneravel Pessoa em a noite de 3 de Setembro de 1758. Mas a Providencia de Deos, salvando-lhe com prodigio a vida, fez que naõ ficassem sem castigo os perfidos delinquentes, fazendo-os justiçar a 13 de Janeiro do seguinte anno em o Caes de Belém; porque o Principe, que dissimula a malicia, reina só no nome; o que a castiga, reina no nome, e no officio.
172 Ainda naõ havia bem descançado de punir traições, e acautelarse de insultos, quando os Reys Catholico, e Christianissimo com o Pacto de Familia, que entre si estipularaõ, querendo por força que nos declarassemos contra Inglaterra, invadiraõ, e atacaraõ com cavilozos pretextos algumas das nossas Praças Trasmontanas; commetendo o Marquez de Sarria, e outros Generaes Castelhanos muitas hostilidades desde 8, 15, e 21 de Mayo de 1762, em que se introduziraõ em Miranda, Bragança e Chaves, e em cujas acções tem perturbado a paz publica, e fé dos Tratados estabelecidos com a antiga solemnidade.
173 Porém como da nossa parte milita a justiça, e a razaõ, espera ElRey Fidelissimo triunfar do poder, e industria de seus inimigos. Para este bom exito mandou fazer promptas as suas Tropas, cujo total mando, e manejo entregou plenamente ao Conde Soberano de Lippa Guilherme de Schaumburg, Cavalleiro da Real Ordem Prussiana da Aguia Negra, Pessoa que ElRey da Grã Bretanha, como nosso Alliado, elegeo, por ser de huma distincta reputaçaõ, e de conhecido valor, e fama nas guerras da Europa. Sua Magestade Fidelissima o nomeou Marechal General dos seus Exercitos, e Director geral de todas as suas Tropas por Decreto de 3 de Julho de 1762.
174 Toda esta boa razaõ, e justiça, em que se estriba a nossa defensa, fez persuadir tambem ao Principe Carlos Luiz Federico Duque de Meckelburgo, Streliz, Principe de Vandalia, a que passasse dos exercitos Britanicos onde era Marechal de Campo, para as Tropas delRey Fidelissimo, o qual logo o nomeou Coronel General de hum Regimento de Cavallaria, a que deu titulo de Meckelburgo. Naõ só prometem estas antecedencias felicidades às Armas Portuguezas, mas animo. Será cada coraçaõ Portuguez hum escudo à vida, e gloria de nosso Augusto Monarca, o qual em militares campanhas amedrentará com o ecco do seu valor dilatados climas do Universo.