17 Na raiz desta serra encostado ao Norte está o Convento de Villar de Frades, hoje dos Conegos Seculares de S. Joaõ Evangelista, e antigamente dos Monges de S. Bento, onde aconteceo aquelle prodigioso caso a hum Monge, que reflectindo sobre as palavras de David no Psalmo 89. onde diz: Que mil annos diante de Deos saõ como hum dia, que passou, se foy contemplando a trás da armonia de hum passarinho, que com a suavidade da sua voz o enterteve extatico na cerca do Convento o espaço de sessenta annos, sem ser visto, nem achado de ninguem; dando-lhe Deos a entender pelo engodo transitorio daquella ave canora, quanto na sua adoravel presença as eternidades de gloria parecem instantes, como bem diz o Doutor Villasboas, que refere este caso na Nobiliarquia Portugueza cap. 9. e o Agiologio Lusitano tom. 1. Toda esta serra he fertil de pastos, e arvores, em que se dá o melhor vinho de enforcado, que deste genero ha no Reino.
18 Amarella. He serra do Minho muy despenhada, e quasi principio da do Gerez. Descobrem-se da sua mayor altura muitas povoações distantes, e do mar Oceano quanto a potencia da vista póde alcançar; alargando-se tambem a vista até grande parte de Galiza, que lhe serve de termo. Cria muito lobo cervaz, e javalizes, que damnificaõ os gados, por cujo motivo os moradores dos Concelhos alli proximos lhes vaõ fazer montaria em tempos determinados, por obrigaçaõ.
19 Amoreira. Fica na Provincia da Estremadura, e nos limites de Odivellas, de cujo cume se descobrem por todas as partes muitas povoações. Todo o seu mato saõ fetos, e consta de excellentes pedreiras negras para alvenaria, donde se extrahe muita parte para varias obras de primor.
20 Anciam. Tem seu assento na Beira entre as Villas do Rabaçal, e Pombal, e corre de Thomar até Coimbra. Em algumas partes he mais eminente que em outras, mas sempre de vista alegre, pois cria muito alecrim, e variedade de boninas, e outras flores, que servem de pasto aos muitos enxames de abelhas, de que fabricaõ excellente mel. Dizem que fora habitada pelos Mouros, de que ha ainda alguns vestigios. Aqui se vê huma grande lapa chamada Algar da agua aberta em hum penhasco taõ espaçosamente, que podem caber dentro quinhentos homens. Cria tambem abundancia de perdizes, coelhos, lebres, e rapozas. O Author da Corografia chama a esta serra a Carreira.[183]
21 Araceli. He huma serra do Alentejo no Arcebispado de Evora, que tem meya legua de comprido, despovoada, e que em algumas partes admitte cultura. O seu mato he rasteiro, e nelle se criaõ hervas medicinaes, a agrimonia, a douradinha, e com especialidade o arbusto Daro, de cujas bagas se faz azeite muito bom para as luzes, e tambem para o prato, e tem particular virtude para as dores de flatos. Ha aqui muita caça de toda a casta, e muitas colmeas de abelhas, de que se tira bastante mel. No cimo da serra se logra huma boa vista desafogada, e se adora a imagem da Senhora com o titulo de Araceli, que deu nome à serra.
22 Arada. Serra junto ao Concelho de Lafões, que terá tres leguas de comprido. Tem grandes despenhadeiros, e perigosos. Na planicie da sua mayor altura, que he espaçosa, está o Lugar da Coelheira. Consta toda esta serra de mato real, onde se cria muita caça, até aguias, e hervas medicinaes.
23 Arga. Chama Ptolomeu a esta serra Promontorio Avaro.[184] Divide ella os termos de Viana, Ponte de Lima, Coura, e Caminha, e deu terreno antigamente a hum Convento Benedictino entre as densas matas do seu ambito, o qual hoje he Paroquia, cujo Reitor assiste em Filgueiras. Tem esta serra cousas muito especiaes, que mais extensamente se podem ver na Corografia Portugueza, e no Diccionario Geografico.[185]
24 Arrabida. He esta serra huma aspera montanha da Estremadura, que corre direita de Nordeste a Sudueste no mais desabrido della pelo espaço de duas leguas, e continúa mais tres até o Cabo de Espichel por sitio menos agreste fazendo varias quebradas. Fica-lhe na raiz para a banda do Norte o sitio de Azeitaõ; para a parte do Sul as prayas do Sado. Olhando de cima para o mar Oceano, se vê Cezimbra à maõ direita, e Setubal à esquerda: e desta mesma parte, quasi no meyo da serra, está o Convento dos Padres Arrabidos da mais estreita observancia Franciscana, muy penitentes, e onde viveo muitos annos S. Pedro de Alcantara.
25 Conforme diz Gaspar Barreiros[186] o nome de Arrabida he derivado da antiga Arabriga, que Ptolomeu, e Ortelio situaõ com igual demarcaçaõ perto da dita serra; e mostra ter mais probabilidade, que o que dizem o Doutor Alvaro Gonçalves de Camões, a quem seguem Fr. Antonio da Piedade, e Joaõ de Brito de Mello,[187] os quaes a derivaõ do nome Errabundus; porque os que subiaõ a esta serra, sempre erravaõ o caminho. O Padre Fr. Francisco Gonzaga diz,[188] que os Mouros, quando aqui habitaraõ, lhe pozeraõ este nome, que no seu idioma significa o mesmo que Oratorio, ou lugar solitario, e proprio de fazer penitencia.
26 Os Romanos chamaraõ a esta serra Promontorio Barbarico; ou porque os seus habitadores, chamados Sarrios, levaraõ daqui para Roma muita grã, de que a serra abunda, com a qual os Romanos tingiaõ os seus vestidos, a cuja cor encarnada davaõ o nome de barbara, e aos conductores barbaros, como diz André de Resende;[189] ou porque os povos, que primeiramente aqui viviaõ, tinhaõ costumes barbaros, e rusticos, como observa Fr. Bernardo de Brito, e Floriaõ do Campo.[190]