11 Huma das cousas singulares deste aqueducto he vir correndo a agua horizontalmente por estes encanamentos sem declividade alguma; mas esta se lhe vay dando a certas distancias por linhas perpendiculares, como por degráos de escada, para total segurança, e conhecimento do quanto se sóbe, ou desce; cousa, que tambem naõ se acha executada em aqueducto algum. Desta sorte conduzidas à custa do povo, ainda que perdem o antigo nome de aguas livres, mereceraõ outro mayor, e mais conhecido na utilidade pública de huma taõ populosa Cidade, e na graça de hum taõ inclyto Monarca, para cujo ardor em solicitar a commoda conservaçaõ de seus vassallos ainda he pouco todo o manancial desta ribeira.

12 Os Romanos, quando Lisboa era seu Municipio, intentaraõ introduzirlhe estas aguas por aqueductos subterraneos, abrindo a este fim muitos rochedos; e entre as penedias asperissimas de dous montes, que naquelle sitio existem, fizeraõ hum muro larguissimo, e forte, que lhe servia para reprezar a agua de hum valle em huma lagoa, em que traziaõ batéis, como diz Francisco de Ollanda em hum tratado manuscrito, intitulado: Fabrica, que falta a Lisboa, o qual vimos, e se conserva na Livraria do Excellentissimo Conde do Redondo.

13 Tambem o Senhor Rey D. Manoel determinou encaminhar estas aguas para Lisboa, e que corressem na praça do Rocio. Para isso mandou fazer ao allegado Francisco de Ollanda o desenho de hum chafariz, que nós vimos, e constava da figura de Lisboa em cima de huma columna cercada de quatro elefantes, que pelas trombas expulsavaõ a agua. Estes desejos naõ tiveraõ effeito, nem ainda em tempo do Infante D. Luiz, que tanto appeteceo conduzir esta agua para a ribeira das Náos, em fórma que as da India della fizessem as suas aguadas. Consta tambem pelo que diz Luiz Marinho de Azevedo, que o Senado de Lisboa tinha junto para a obra desta conduçaõ mais de seiscentos mil cruzados, os quaes se divertiraõ nas festas, que se fizeraõ com a entradada de Filippe III. Todos estes embaraços estiveraõ esperando pela providente resoluçaõ delRey D. Joaõ V. para fazer mais feliz o seu reinado, escolhendo, e approvando para a sumptuosidade desta fabrica o risco, e desenho do Brigadeiro Manoel da Maya, que por sua sciencia, engenho, e outros attractivos de bondade merece imortaes elogios.

14 Agueda. Neste Reino ha dous rios deste proprio nome: hum, que passa por Agueda, e este he o Emineum dos antigos, que vay morrer em Aveiro: outro, que divide Portugal de Castella na Comarca de Riba-Coa. Nasce na serra da Estrella, passa pela Ciudad Rodrigo, vay à ponte da Villa de S. Felizes, donde a pouco espaço por entre altos montes em Vilvestre entra no Douro.

15 Aguilhaõ. Nasce na serra do Maraõ formado de tres fontes, e com arrebatado curso se mete no rio Corgo. Cria muitos, e gostosos peixes, especialmente bordallos, que se apanhaõ aos cardumes. Pelas margens ha copia de arvoredos, e vinhas, que fazem toda a sua corrente agradavel, e amena; dando que fazer a mais de vinte açudes, deixa-se atravessar por tres pontes de páo, e huma de cantaria.

16 Alborrel. Nasce na serra de Portalegre. Vem circulando Aremanha, e divide Portugal de Castella. Nelle se pescaõ gostosos barbos.

17 Alcantara. Esta formosa ribeira quasi que cerca Lisboa, e se mete no Tejo pela parte do Poente. Luiz Mendes de Vasconcellos no livro, que compoz, intitulado: Sitio de Lisboa, mostra de quanta utilidade seria communicarse este rio com o de Sacavem, do qual naõ dista mais que legua e meya para que ficando dentro deste circulo Lisboa, conseguisse o mais seguro, e fertil terreno, que houvesse no mundo. Neste sitio está a fabrica Real da Polvora reedificada por Antonio Cremer.

18 Alcaraviça. He ribeira, que corre pela Aldea chamada dos Gallegos no termo da Villa de Borba, onde tem seu nascimento em duas fontes taõ abundantes de agua, que fazem moer muitas azenhas.

19 Alcarabouça. Provê este rio de bastante peixe a Villa de Ficalho, por onde corre quatro leguas distante de Serpa.

20 Alcarapinha. Corre junto a Elvas, e nasce na serra de Aviz. Suas aguas augmentaõ muito a ribeira de Coruche.