79 Canha. Rega esta ribeira os valles, e os campos de Montemór o novo, e se submette a duas pontes, huma chamada de Alcacere, e outra de Evora, e fenece no Tejo. A esta ribeira foy parar o corpo da gloriosa Virgem, e Martyr Santa Quiteria, da qual a lançaraõ os barbaros com huma mó de moinho ao pescoço pelos annos 300 pouco mais, ou menos depois de Christo, cujo corpo sendo achado pelos Christãos, o foraõ occultar em huma cova no sitio de Monfurado, para baixo de hum monte, onde está huma Ermida da invocaçaõ de S. Christovaõ; mas até agora está taõ occulto, que ninguem tem dado com elle. Nos fins de Julho de 1738 correo a noticia que hum tal Manoel da Costa Pedreiro, natural da mesma Villa, achara muito por acaso a mó; com que a Santa foy lançada no mesmo rio. Tinha de diametro dous palmos, e de altura seis dedos, e era de pedra branca com salpicos pretos; mas naõ se assentou em cousa certa. Veneraõ-se hoje tres imagens de Santa Quiteria na Provincia do Alentejo. Huma em Montemór o novo na Igreja de S. Joaõ de Deos: outra na Ermida de S. Christovaõ; e outra em a nova Igreja dos Monges das Covas no Altar collateral da parte da Epistola, collocada no anno de 1759.
80 Carbuncas, ou Cabruncas. Nasce na serra de Freixedas do Bispado de Leiria. Diffunde-se até a Villa de Pombal, onde adiante com o Danços caminha a Soure, e vay finalizar no Mondego.
81 Carcedo. Faz mençaõ deste rio Macedo nas Flores de Hespanha, sem dizer onde nasce, ou por onde corre.
82 Cardeira. Nasce esta ribeira das vinhas de Béja, e correndo de Norte a Sul, depois de passar pela ponte de hum arco, expira no Guadiana em a Freguezia de Santa Catharina de Quintos, termo da mesma Cidade de Béja.
83 Carnide. He huma ribeira que nasce no termo de Leiria, e vay buscar o Louriçal, onde tem huma ponte, e depois de andar seis leguas, vay morrer no Mondego por cima da barra da Figueira.
84 Castelãos. Nasce no Lugar de Cadraço, que fica no Concelho de Guardaõ, e correndo por entre montes, e penhascos, vem a formar o rio Crins, que se mete no Mondego.
85 Cávado, a quem os Romanos chamavaõ Celando, e Ptolomeu appellida Cavus. Nasce nas Asturias, conforme alguns, ou na Serra do Gerez, segundo outros; e precipitando-se ao Valle para receber outras ribeiras, especialmente o chamado Homem, cerca, e poem em Peninsula as mesmas terras, por onde passa huma legua de Braga. Rega com suas aguas frigidissimas as Villas de Prado, onde tem ponte; os muros de Barcellos, onde tem outra formosa ponte, e vay acabar no mar por entre Faõ, e Esposende; e de Faõ até a barra dá huma volta para o Norte quasi do feitio de hum C, e nesta volta quebraõ muito sua força as marés. Vejaõ os curiosos as perguntas, e respostas, que acerca deste rio fez o Reverendo Padre Argote.[227] Pescaõ-se neste rio muitos salmões, relhos, e outra variedade de peixe, e se achaõ tambem nelle amethystos, jacinthos, e crystaes muy finos. Entre todas as pontes por onde se deixa vadear, he muy famosa, e magnifica a que existe na Freguezia de S. Thomé de Perozelo; pois consta de doze arcos de cantaria, obra Romana; e por aqui fazia transito huma das vias militares que sahiaõ de Braga para Astorga.
86 Cá-vay. Este rio passa pelo termo de Castellobranco naõ muy distante da Igreja de Nossa Senhora de Mercoles.
87 Caya. Nasce em Castella na serra de S. Mamede junto do monte chamado dos Sete, termo da Villa de Marvaõ; e correndo pelo meyo dos soutos da Villa de Alegrete, e perto de Arronches, vem separar Campo-Mayor da Cidade de Elvas, e passa pela celebrada ponte de Caya antes de entrar no Guadiana proximo a Badajoz. He esta ribeira muy conhecida, porque sobre a ponte, que alli se levanta, se costuma fazer a entrega das Pessoas Reaes de Portugal, e Castella, que por casamento mudaõ de Reino: assim o vimos em 19 de Janeiro de 1729 nas Reaes entregas das Serenissimas Princezas do Brasil, e das Asturias.
88 Cayde. He hum ribeiro, que nasce no monte de Santo Antonio perto da Vila de Guimarães, e se mete no Celho.