Foi então que, depois d'um segredo, que o Antonio Pataco lhe disse ao ouvido com ar de muito misterio, a Mathilde sahiu, entrando pouco depois com os leitões e trazendo debaixo dos braços umas poucas de garrafas, que poz sobre a meza defronte do padeiro.

—Sabem, meus senhores?... Garrafas lacradas por mim no dia do meu casamento. Os seus copos, façam favor... Ora adeus! O que é isso, sr. professor? O copo maior... Então? O vinho é o sangue dos velhos.

O sangue não sei, a lingua é com certeza. Instantes depois, a algazarra subira de{22} tom a tal ponto, que o professor, de pé, examinando á luz a transparencia da amethista enorme que lhe refulgia no copo, teve de pedir auxilio ao dono da casa para impôr silencio á velhada.

—Meus senhores... começou.

Mas as velhas não se continham; haviam de palrar por força. Mal o mestre-escola, com ar choroso, começou falando de tantos que faltavam áquella festa, puzeram-se ellas a gritar:

—Basta! Basta! Não queremos tristezas!

Deus me perdõe, mas está me parecendo que o vinho lhes subira ás cabecinhas brancas.

Não sei se o professor tambem desconfiou da coisa. Muito offendido, todo vermelho, sem poder dominar com a sua fanhosa voz de falsete a immensa berraria, pousou o copo sobre a meza e começou a atacar o queijo, resmungando.

O Bento é que teve as honras da noite, contando historias da sua mocidade.{23}

Rapaz perfeito, dono de tres moinhos, era mais a mim, mais a mim, todas o queriam.