E pelo corredor a Josepha, com a sua saiasinha amarella, bordada, com largas fitas de velludo preto, muito envergonhada, era seguida pelo Antonio, que, por brincadeira, queria impedir que os amigos viessem, dizendo que não era costume.{26}
Pararam todos á porta.
Pela janella entreaberta a luz fria da manhã entrava no quarto, enchendo-o d'uma serena meia claridade.
O quarto estava na mesma: o oratorio defronte da porta sobre a commoda de pau santo, á direita o bahu encoirado, tapado com uma chita de ramagens, ao fundo o leito antigo, muito alto, coberto com uma colcha escarlate e onde, uma ao lado da outra, muito chegadas, duas almofadas bordadas, pequeninas, alvejavam na penumbra.
Havia cincoenta annos!{27}
[A OUTRA]
Era em fins d'agosto, á hora do meio dia.
Havia um instante, que, na torre pequenina da egreja, o sacristão, com a cabeça abrigada do sol por um grande lenço de fundo vermelho com ramagens amarellas, tinha feito soar vagarosamente as ave-marias.
Hora do descanço. Alguns dos que trabalhavam{28} mais perto recolheram a casa para jantar e socegar um pedaço, durante a sesta.
Depois tudo pareceu adormecer na aldeia. Junto aos muros, enfileiradas todas na nesgasinha de sombra, as gallinhas dormitavam; os passaros nos salgueiraes, que sombreavam o ribeiro, tinham emmudecido. No interior das casas nenhum rumor, por entre a folhagem nenhuma viração. Até as carroças, nos pateos, com os varaes aprumados, pareciam, como n'um espreguiçamento, dispôr-se para o somno.