O homem ergueu-se n'um impeto, como quem toma uma decisão inabalavel contra argumentos. Cambaleando, arrastando-se, approximou-se do caes. Pequeninas vagas marulhavam docemente e lá do fundo subia um frio humido, desagradavel, frio de morte. Então poz-se a fitar os olhos nas aguas e, como se ellas lhe cantassem uma canção muito meiga, como se ouvisse a voz da melhor amiga, sorriu-lhes desvanecido, mais tranquillo, já quasi convalescente da longa noite de exaspero. Duas grossas lagrimas correram-lhe pelas faces macilentas, o peito{159} oppresso ergueu-se alto, e elle respirou fundamente, passou as mãos pela cara. Pouco depois, preso de pavor medonho, abalou, sem querer olhar para traz, com gestos doidos, d'olhos esbogalhados, chapéu na mão, melenas erriçadas.
E, passados instantes, estava outra vez junto do caes, parado, meditando, com os olhos fitos na agua.
O Tejo accordára. Do lado do Barreiro surgiam umas velasitas brancas e rio abaixo singrava, orgulhosa, uma grande fragata de vela avermelhada, com uma ancora pintada de negro no panno, projectando na agua immovel como grande placa oleosa, uma imagem tremida, enorme, cortada por uma linha de espuma. Em terra começavam a definir-se certos sussurros. Rangiam portas de tabernas, passavam peixeiras correndo, um guarda nocturno batia fortemente á porta d'um armazem, ouviu-se um despertador no interior d'uma casa. O ceu, muito branco havia pouco, tornara-se côr de laranja. A neblina{160} erguera-se e o fumo das chaminés subia a prumo, alargando-se no alto, como um penacho de porta machado.
Então o homem decidiu-se e de braços para a frente, atirou-se ao rio—Chap!—O benemerito guarda d'alfandega, o 72 por signal, atirou-se atraz do homem.
E, quando seguia para a esquadra, acompanhado pelo guarda que gesticulava muito, entre dois soldados da guarda municipal, encharcado, sujo, envergonhado, arrependido, tranzido de frio, o grillo continuava distrahido sob as pedras:—gri, gri, gri, gri...
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Ora isto não quer dizer nada; mas então porque foi que só n'essa occasião é que elle embirrou com o grillo que fazia gri, gri?{161}
[[1]] Variante em verso, publicada pela livraria Popular
[NA BIQUEIRA]
Ella tem uns olhos azues tão bonitos!... Mas se eu vi! Elle a olhar para cima... e ella a fazer signaesinhos com o lenço!... Vi; ninguem m'o veio dizer... Fui eu que vi!