Fr. Bermudo (só)
FR. BERMUDO
(Rindo.) O maior homem!... Sou o maior homem, sou, porque padeço mais que os outros. A dôr moral é que distingue o homem da fera. (Pauza.) Lêr o futuro nos astros, lêr as paixões no coração; ter segredos que dão vida, e segredos que matam...—Que tem?! O futuro é um martyrio que me assusta; as paixões que escondo neste coração são crueis e negras. Se esta vida durasse uma eternidade, sería uma vida maldicta... E depois da vida a morte!... Morrer sem ter sido amado, sem ter recebido um affago... sem ter a esperança de ouvir, mesmo quando já envolvido nas profundas trevas do sepulchro, um grito de saudade que me acorde!... De que serve a sciencia?... E o que é ella, essa sciencia que não póde vencer o destino, nem sequer descobrir as leis eternas que o regem? De que me serve o saber?... Tenho mais dores que os outros homens, e menos fé...—Mendo... O meu Mendo, o meu amigo, o meu filho,—porque lhe quero como se elle fôra meu filho,—como o hei de salvar?... E Violante, esse anjo, que eu... cujo nome me faz alegria e terror...—como os hei de separar, esses corações que o amor e a mocidade atraem um para o outro, e que o destino separa por um abismo! (Pausa—apontando para os astros.) Está escripto... está tudo escripto nos astros...—É fatal! (Crusa os braços e fica meditando.)
SCENA V
D. Mendo e Fr. Bermudo
D. MENDO
(Vendo Fr. Bermudo.) Aqui, fr. Bermudo!
FR. BERMUDO
Esperava por ti, D. Mendo.