Quero-a Mendo, esta alma é um abysmo, tão tenebroso, que nem eu me atrevo a olhar para elle... tenho medo.

D. MENDO

Tens sofrido muito? Tens padecido?

FR. BERMUDO

Escuta e verás. Tinha um unico irmão, que amava muito; ficámos orphãos ambos ainda infantes. Eu nunca tinha tido outro sentimento no coração, senão essa amizade profunda, extrema que lhe consagrava a elle; tinha-lhe salvo a vida nas batalhas á custa do meu sangue... Tudo que via de bello no mundo desejáva-o para lh'o dar. Se havia a affrontar um perigo ia eu por elle, se havia gloria a ganhar, deixava-o ir, e ficava eu. A minha vida era d'elle só.—Um dia, voltava de uma correria contra os mouros, não achei senão o seu cadaver! Meu irmão fôra assassinado.

D. MENDO

Vingaste a sua morte?

FR. BERMUDO

Procurei o assassino, para vingar a morte de meu irmão; tinha ido para essas longes terras da Palestina. Fui tambem. Busquei-o por toda a parte; atravessei o deserto soffocado pelos ardores do sol, devorado pela sede, consummido pela fome. O meu cavallo morreu, e prosegui na minha peregrinação a pé encostado ao bordão de peregrino. Padeci martyrios crueis, mas não encontrei nunca esse homem que buscava. Disseram-me que tinha morrido... Voltei para a patria.

D. MENDO