Os pobres cazeiros trabalham muito, e padecem muito, Jozé Velhaco. Nisso tens tu rasão.

JOZE

Tenho, e não me heide cançar de prégar estas verdades. Os cazeiros, nós, os villões, trabalhamos, e os morgados comem os nossos fructos e bebem o nosso vinho. Estão sempre aqui a fallar em que nós, os que vamos a Demerara procurar fortuna, largamos a nossa terra para irmos ser escravos dos inglezes, para sermos escravos brancos! E aqui, nesta terra dos morgados, o que somos nós senão escravos? Ao menos, lá por essas terras dos inglezes, um homem activo, tendo cá fogo de dentro como eu, e como tu, meu Luiz, faz fortuna, faz-se rico como um morgado... mais do que um morgado, porque não deve nada a ninguem. Ah! ah! santa palavra!

LUIZ

Isso são sortes. Uns enriquecem, e outros por lá ficam, mortos ou escravos.

JOZE

Qual historia! Pois um homem vae d'aqui, e recebe logo trinta patacas... como tu recebeste hontem. Em! Trinta patacas é uma boa conta.

LUIZ

É, é. Vinte ahi ficam para minha mãe; e as outras dez gastam-se na viagem.

JOZE