ACTO QUARTO
A cella de Fr. Bermudo no mosteiro de Mumadona. Alguns instrumentos de alchimia, livros e pergaminhos etc. Uma porta do lado direito; outra ao fundo deitando para um pequeno oratorio, em que se vê uma cruz com toalha; uma janella do lado esquerdo. É noite, uma lampada alumia a scena.
SCENA I
Frei Bermudo (Só.)
FR. BERMUDO
(Olhando para o céu pela janella aberta. Ouve-se do interior do theatro uma harmonia solemne ao longe, fazendo apenas um murmurio brando.) Os espiritos superiores caminham invisiveis por entre os astros. Accompanham-os essas harmonias infinitas das constellações, que os sentidos imperfeitos dos habitantes da terra não podem ouvir, mas que a rasão atrevida ousa advinhar e comprehender. Caminham pelo céu os espiritos invisiveis, e no seu rapido vôo vão escrevendo com as estrellas os destinos dos homens. Quem póde lêr claramente essas phrazes, que duram um instante apenas, que são ephemeras como a existencia do homem, essas phrazes escriptas n'uma lingua de que os astrologos conhecem apenas algumas palavras soltas? Quem póde duvidar de que no ceu se escreve a historia do futuro de cada homem? Quem póde duvidar?... Eu, eu mesmo duvido. O orgulho talvez seja o creador da astrologia. Pois o homem merece que os espiritos superiores escrevam o seu destino? O que sabemos nós todos? Sabemos até onde chega a nossa ignorancia e nada mais.—O homem, em vigilias longas e virtiginosas, gasta a vida, séca a intelligencia, destróe a fé e a pureza de espirito, mas não penetra o segredo d'essas palavras, lançadas no céu pelos poderes da natureza. (Pauza.) Caminha, ó minha pallida estrella, caminha... caminha astro de funebre agouro; que em breve marcarás a hora mais fatal da minha existencia.—(Longa pausa; calla-se a orquestra). Hoje maldicto... hoje serei amaldiçoado por Violante.—Tomei para mim esta tremenda vingança... heide ser eu o assassino de D. Pedro, do pai de Violante.—Se ao menos esta vingança podesse apagar da memoria de todos o crime de D. Pedro Framariz, depois o meu querido Mendo, e a pura Violante podessem ser felizes!—Ai! Que dôr será a desses desventurados agora que sabem já o tremendo poder que os separa!... Que vida, que existencia esta minha!... Um abismo... é um abismo a minha alma! Um abismo onde não houve nunca senão tres paixões... a amizade, a vingança, o amor. Uma amizade sancta, profunda, unica, exclusiva. Um desejo de vingança frio, lento, sem enthusiasmo, como se houvera nascido no coração de um cadaver. Um amor... um amor que pode fazer esquecer a vingança... que pode esquecer-se a si proprio para só desejar a felicidade d'aquella a quem se consagra.—Ó Violante... quero-te tanto, que vou buscar o teu odio, para que tu não odeies o homem que te captivou o coração. (Silencio; ouve-se de novo a orquestra muito longiquamente até ao fim do monologo.) Se nesses livros, onde homens orgulhosos escreveram o que elles chamavam a sua sciencia, eu podesse descobrir o segredo de Deus!... Se eu podesse criar um talisman que subjugasse o destino!... Se eu tivesse pelo poder do pensamento, e pela grandeza da vontade, força para desfazer o passado! Ambição!... orgulho!... loucura! O passado não pertence já a nenhum poder, nem mesmo ao poder infinito de Deus! Quizera ao menos ver um desses espiritos superiores, para lhe fallar, para saber delle os mysterios do material e do immaterial... (Com abatimento.) para saber quando ha de acabar este padecer, esta minha vida.
SCENA II
Fr. Bermudo e D. Violante
D. VIOLANTE
(Entrando toda vestida de branco.) Fr. Bermudo.