Talvez; que a sua misericordia é infinita.

D. GONTRADE

Escutae-me então, padre, e pedi a Deus que seja misericordioso comigo; porque me sinto morrer, e vou ser julgada no tribunal supremo.

FR. BRMUDO

(Áparte.) Esta voz!... Esta voz é de D. Gontrade; Que vou eu ouvir, meu Deus! (Assentando-se.) Dizei.

D. GONTRADE

(Ajoelhando.) Dae-me forças Senhor! (Pausa.) Padre, eu era feliz, quando um nobre cavalleiro de Portugal me offereceu a sua mão, e o seu nome.—Não se póde amar com mais amor, não se póde querer mais da alma, sacrificar mais por uma mulher, do que esse homem o fez por mim!! Ouvi como eu lhe paguei tanto amor! As guerras do Conde D. Henrique com os moiros chamaram-no para longe de mim: fiquei só em quanto elle peleijava por essas terras distantes. Passaram mezes, sem que eu houvesse novas de meu marido. Um dia, estava eu assentada no eirado de minha casa, lancei os olhos ao campo, e vi vir ao longe um cavalleiro, seguido de muitos homens d'armas, julguei que fosse elle, e corri a recebel-o. Foi a ultima alegria que tive. Quando o cavalleiro se aproximou... conheci que não era quem eu desejava. Perguntei-lhe, se pelas guerras em que andára vira meu marido... respondeu-me, que expirára n'um recontro com os moiros, peleijando como um heroe; assegurou-me que todo o exercito, e elle mais que todos havia chorado muitos prantos sobre a sua sepultura. Mais de um mez chorei a morte de meu marido, com uma dôr amarga e sincera. Mas a minha alma era fraca; não sabia soffrer. Depois do pranto vieram as saudades; depois as consolações; e depois o amor por esse mesmo homem, que me havia trazido a fatal nova.

FR. BERMUDO

(Com muita anciedade.) E vosso marido!?

D. GONTRADE