FR. BERMUDO
(Tranquillo). Escuta.—A desgraça é uma provação da alma, que a deve robustecer; que lhe deve dar essa grandeza, signal da sua immortalidade. É tempo de voltar para o ceu esses teus pensamentos, que ainda não soubeste desprender das cousas mundanas.—Daqui a uma hora professarás. É necessário, filho, que o novo cavalleiro do templo seja digno do seu elevado ministerio, esteja pela fé á altura destes tempos de dura provação, de lucta permanente porque a igreja de Christo está passando neste seculo.
D. MENDO
Não posso, Fr. Bermudo, parece-me que não posso pensar senão em Violante. Mas vou ver se pela oração comsigo elevar a minha alma até essas alturas sublimes, donde se perdem de vista as miserias do mundo. (Vae lentamente ajoelhar diante do altar.)
FR. BERMUDO
E se elle conhecesse, como eu, toda a grandeza, da nossa desventura! Se elle estivesse nesta duvida tremenda, em que o meu espirito vacilla agonisante; ora persuadido de que cumpria um dever, ora aterrado pelo mais cruel remorso, que homens tem sentido!—Violante ainda vive, mas daqui a uma hora...—Eu devo ir arrancar-lhe das mãos aquelle veneno; para que ella não morra! Mas que importa?... Ella quer morrer, e bem sei que vontades poderosas, resoluções firmes como a sua não as vence nem a persuasão, nem a força!—Ainda ha pouco lhe fallei, lhe pedi pelas cousas mais sagradas da terra, e do ceu, pelo amor e pela religião, que não cedesse á triste tentação que a arrasta, á fascinação que a cega... respondeu-me só que amava e queria morrer pelo seu amor. (Neste instante entra Violante pela direita, e aproxima-se de Fr. Bermudo, sem que D. Mendo a veja.)
SCENA IV
Os mesmos, D. Violante.
D. VIOLANTE
Fr. Bermudo.