FR. BERMUDO
A vingança... esqueci-a por ella. Tu bem o sabes, Mendo.
D. MENDO
O ciume...
FR. BERMUDO
Um amor como este meu, é como á immensidade do deserto; as tempestades atravessam-no rugindo medonhas e ferozes, os vulcões ardentes passam revolvendo as areias, cavando abysmos, cobrindo com montanhas os restos de antigas cidades; mas toda essa desordem tremenda perde-se, torna-se pequena n'aquelles espaços infinitos; e depois fica tudo arido, morto, immobil como d'antes.—Oh! o ciume foi como a tormenta do deserto, passou atravez da immensidade d'este amor, revolvendo-me o mais intimo do coração, sem que eu mesmo possa ver já as ruínas que deixou após si. Não foi o ciume, foi a piedade, foi uma grande dor de coração, um puro e sancto dó d'esse padecer, que a consumia.
D. MENDO
Dó! Piedade! E matas-te-la! Corre a salva-la, se ainda é tempo.—Não vás... vou eu.
FR. BERMUDO
(Detendo-o.) Não, não vás. É uma crueldade. E, de mais, é tarde: agora já ella terá tomado o inexoravel veneno.