MARIA
Fizeste-me perder o meu filho; foste que m'o tiraste dos braços para o mandar como escravo a Demerara! O meu Luiz morreu... perdi o meu filho, e eu d'aqui a dias irei ter com elle. É de lá da cova, escuta bem Joze! é da cova, que ambos te amaldiçoamos, para que a tua alma não tenha socego, nem o teu corpo descanço, em quanto vivo fores; para que, depois da morte, a justiça de Deos te lance nos infernos. (Sáem as duas.)
SCENA VI
Joze, só
JOZE
Está doida, doida varrida a velha. E eu que ia perdendo a cabeça; como se um homem de juizo, e conhecedor do mundo, podesse perder a cabeça nestas alturas! Santa palavra! Um homem sempre é um homem, e não faz caso de rabugices de bruxas tontas. O que necessito, e vou fazer, é gastar umas poucas de patacas, e mettel-a no hospital por doida. Logo vi que da mão de Maria das Dores não vinha cousa boa! Tenho de gastar o dinheiro que o filho me rendeu, para agora alojar a mãe no hospital, ou na cadeia. Vamos fazer calar esta matraca, que me anda sempre a matinar os ouvidos. O que importa, em tudo isto, é que a Joanninha consinta no casamento. Gosto della, e gosto muito, e nunca pensei que tal podesse acontecer-me!. (Rindo.) Ah! ah! a não ser o bom pedaço de terra, que tem o pae, não eras tu meu Joze Velhaco capaz de intender o desasocego, em que anda o teu coração! A idéa de tirar do correio todas as cartas, que o Luiz escreveu á mãe e á Joanninha, foi famosa! Estão crentes, que elle morreu, e a esta hora talvez não estejam enganadas! Graças a Deus morre-se depressa em Demerara, quando se trabalha no campo, ao sól, e com o estomago vazio; e o Luiz não o havia de traser cheio. Ésta minha cabeça é uma grande cabeça, e eu ainda heide de ser coiza grande no mundo! Meu pae mandou-me aprender a lêr e a escrever; aproveitarei a boa lembrança de quem já lá está na terra da verdade. Joanninha hade ser minha, ou não heide chamar-me Joze... Velhaco. Santa palavra!
SCENA VII.
Joze Velhaco e Joaquim.
JOAQUIM
(Batendo á porta.) Ólá, menina Joanninha!