Nós temos julgado inutil dizer que o criterio fundamental da nossa prosodia é—-ler como se diz: criterio sofistico, que não resiste á analyse mas que felizmente a criança na sua simplicidade admitte de boamente. A criança folga de rectificar uma leitura fundada no rigor dos dados, pelo que ouve e costuma dizer. Um certo instincto prático, um sentimento de utilidade a leva a achar muito bem fundado aquelle dictame futil. Bói não se diz; bói não é nada, gostosamente corrige e diz bôi.

E o caso é que emquanto outros, acostumados a syllabas vãs, naturalmente estropeiam as palavras mais logicamente escritas; o nosso alumno mettido naquelle caminho prático, e habituado a intender sempre o que lê, tende naturalmente a dar sentido e alma ás combinações da orthografia mais duvidosa, achando uma palavra corrente.

Nós reservamos lições especiaes para as grandes variações de valor nas vogaes; mas ó e ô não differem dum modo muito extranho.

Isto posto passemos ao p que é irmão de b no valor, e tambem se póde dizer que na figura.

p pai pá pó pé pua pia pipa papa papava papada peta pata patada pita pitada topa tapa tapava tapada

NONA LIÇÃO

Alguns chamam, ao e de saude, mudo. Antes o chamem que o façam, pois se o fazem não fallam portuguez. O u em guerra é mudo, e na maxima parte das palavras onde se escreve gue, gui, que, qui: e ainda n'outros casos como havemos de ver. Porem a vogal e representa sempre voz; e não ha vozes mudas. Deviam-lhe chamar e grave, que é já frase recebida, significando baixo, não agudo, que não soa alto, que não soa muito.

Isto supposto, as inflexões instantaneas por onde acabam palavras portuguezas são l, n, r: exemplo, tal, talisman, ter. Estas inflexões, parece que todas se proferem despegando a lingua do céo da bôca: porem, na sua qualidade de instantaneas não teem som proprio, e por isso, vindo no fim, se despegarmos a lingua durante a emissão da voz, em vez de ter, diremos tere; em vez de tal, tale, etc.: o que é vicioso.

Ora assim como saud' não é portuguez, tambem o não são taes palavras acabando em e grave, que a consoante não representa nem a inflexão póde comprehender.

A respeito do l, uma indicação podeis fazer muito clara e proficua, ao vosso alumno, e é que deixe a lingua pegada ao céo da bôca. Por um dos muitos mysterios da palavra, assim se profere elegantemente o l final, ou posterior á voz.