MINHAS SENHORAS

MEUS SENHORES

Eu não sei de período histórico que mais malsinado tenha sido, por quanto arengadôr comicieiro se tem lembrado de evocal-o, que esse que pelo nome dá de Meia-Idade, fecundo e generoso período que a erudição moderna, ha uns lustros a esta data, com tão desvelado carinho vem reabilitando, para mór desespêro e atarantação dos que na «noite dos seculos», «treva da Humanidade» e «aviltamento do espírito humano» encontraram{12} bordões cómodos a que apoiar a sua indolencia intelectual e o seu arripiante desdém pelos processos honestamente scientíficos de fazêr ou espalhar a História. E é com um regalo um tudo-nadinha perverso que eu esfrego as mãos a cada nova descoberta, visionando a desorientação sempre maior que vai por casa do Senhor Logar-Comum e de sua estimavel consorte, Mme. Frase-Feita.

Popularisada pelo espírito sectarista da Renascença, ainda conserva raíses teimosas no cérebro contemporáneo a impressão de que a Idade-Média mais não foi do que uma deprimente crise, em que tudo quanto de nobre existe no homem correu sério risco de naufrágio.

Porque, ao alvorecêr do cristianismo, das landes e florestas bravías, da Germánia, alguns milhares de teutões, brutais e fortes, como vaga assoladora descêram{13} até aos países que se abrigavam sob a asa, já então desplumada, da águia romana e porque, esfacelado o Império que assombrára o mundo, essas rudes hordas batalhadoras durante alguns centos de anos rijamente se haviam disputado os pingues bocados da prêsa, logo para o critério racionalista, factício, estreito, dos humanistas do Quattrocento os dez séculos que precederam a ressurreição da cultura greco-latina se tornaram num grosseiro e despresivel rosário de ladroagens, devassidões e carnificinas—assim como que uma jaula enorme em que um bando faminto de ursos se entredevorasse, enraivado e excitado pela sangueira.

Por outro lado, as preocupações doentias do au-delà, os terrôres do inferno e o papel capital que a Egreja desempenhou em todas as grandes crises da época,{14} criaram a lenda de que os tempos medievos haviam coalhado em todos os lábios os sorrisos e as palavras de alegria, tornando o mundo num gelado claustro de convento, aonde ninguem se atrevia a falar alto, com mêdo de perturbar o sussurro das litanias e dos Kyries.

O mundo era demasiado estreito para nêle cabêrem à vontade outras figuras que a do frade e a do cavaleiro não fossem. E como por traz do burel monástico se ocultava o mistério da Divindade, isto é, a incertêsa do além—que tanto podia sêr o paraíso como as labarêdas implacaveis do inferno—e a cota de malha dos guerreiros apenas prometia mortes, pestes, assolações e fome, inferiu-se levianamente que, da queda de Roma á queda de Bisáncio, a alegria se exilára duma terra que a não compreendia, tão absorvidas andavam as almas pelo cuidado{15} da própria salvação e os corpos pelo terrôr da morte sempre presente.

A própria catedral gótica (que é o mais intenso himno de júbilo que conheço) foi erradamente encarada como um simbolo de tristêsa, de dolorosa anciedade, de cobardia até[1]!

Essa arquitectura de sonho, tão fragil e amavel aos olhos como uma velha renda de Malines ao tacto, foi inventada, disse-se, para enternecer, para subornar manhosamente Jehovah, tão ríspido e intransigente como nos tempos remotos do Exodo e do Pentateuco.

Não se amava Deus, como não se amava o rico-homem feudal. Mas pagava-se o tributo a um e a outro para arredar calamidades da beira da porta.