Assumptos não lhe faltavam. Toda a serie de lendarias hetairas,—Thais, Sapho, Aspasia,—prestar-lhe-ia ensejo para admiraveis paginas. E sonhava então fazer obra nova, fazer obra sua, propriamente do seu cerebro. Queria divorciar-se de intenções preconcebidas, seguir trilha não arroteada ainda. Sua novella seria em todos os sentidos original,—que não fôssem imputar-lhe a pecha de imitador dos Flauberts, dos Anatoles France, dos Pierres Loüys.

Excellentemente educado, encontrara Heitor em consecutivas viagens optima occasião para illustrar-se. Seu espirito, em assumptos d'arte, possuia um admiravel senso esthetico, que a contemplação dos grandes trabalhos geniaes de todas as epochas havia creado e corrigido. Sonhara, de prompto, fazer illustrar o seu volume com silhuetas de Carlos Aguiar, paizagens de De Angelis e deliciosos molhos de flôres de Julieta França. Havia de enchel-o de illuminuras, deliciosamente. Seria um livro amoroso, toda a nudez do amor hellenico trescalando vivida volupia no texto e fulgurando em vinhetas, n'uma exuberancia de corpos juvenis, como harmonioso hymno á Forma immortal. E todas estas idéas vinham-lhe ao cerebro sem baixa concupiscencia, antes por enthusiasmo artistico, elevado e regenerador.

Entretanto, nada fazia. Quedava-se horas inteiras sentado á secretária, já pensativo, já distraido, rabiscando palavras ermas de senso, ao acaso. E que não havia modo de surprehender a idéa matriz, fundil-a na primeira phrase, definitiva e triumphal. Todos os periodos pareciam-lhe inserviveis, sem nervos. Tocava-os com a vista, sopesava-os com o espirito: eram expressões molles como enguias, que escorregavam-lhe dos sentidos e caíam n'uma laxidão para o olvido, seguidas da saudade dolorosa d'aquelle impotente sonhador.

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Quando adoeceu, Heitor presentiu que estava tudo acabado. Ia morrer. Subiram-lhe então as lagrymas ás palpebras, rolaram pelas faces como pesadas, ardentes perolas em fusão: lamentava o passado, arrependia-se de tantos annos de transigencia com a inercia. Dizia-lhe a consciencia que era de sua culpa, se tão pequena bagagem litteraria legava á Amazonia,—embalde o infeliz, para desculpar-se a si proprio, estivesse no direito de invocar a absorvente tyrannia da existencia, a ingratidão universal. E, em poucos dias, então, cobriu-se-lhe de cans a desgrenhada cabeça scismadora.

No instante em que expirou, esboçava Heitor um meio sorriso translucido: dir-se-ia estar a ver perpassarem ainda as frótas d'Alexandre, mar Jonio a fóra, ao som dos instrumentos musicos de cortezãs sagradas, erectas á prôa e á pôpa, adoravelmente nuas.

CONTO DO NATAL