Á porta da casa principal da fazenda, á beira-rio, em Marajó. Tarde assoalhada pomposamente, na magnificencia vencedora do grande astro a descambar pelo espaço translucido. Chovera uma hora antes e o céu, azul e brunido, estava ermo de nuvens. Dos campos infinitos, muito verdes ao perto, gradativamente azulados á medida que a vista buscava o horizonte, subiam olores adocicados, o bom cheiro dos fortes pastos ensopados d'agua. E do lado dos estabulos, era um retintim jovial de cavaquinhos e violas, o ardente sapateio das danças campesinas.
Toda a familia da Maricota, sentada no copiar em derredor da secular mangueira frondosa da esquerda, palestrava contente, ouvindo as boas chalaças inoffensivas do sacerdote.
Os dois noivos—noivos desde meia hora antes—conversavam a alguns passos de distancia do grupo principal. Para o vaqueiro, esse instante era o mais feliz da vida. Pulava-lhe o coração desencontrado no peito arfante, rebrilhavam-lhe as pupillas, que reflectiam a imagem, sempre meiga e adorada, da sua querida Maricota. Parecia-lhe que a voz da rapariga, n'esse primeiro colloquio já realizado com o assenso da familia, e por isso dotado de um sabor novo, possuia inflexões desconhecidas, entonações extranhas, um avelludado espesso como o refresco do assahy.
Á moça, entretanto, como que um pensamento fixo a preoccupava. Duas vezes já, deixara sem resposta, ou respondera demoradamente, a uma apaixonada interrogação do noivo, ternamente segredada em tremulo balbucio de emoção.
Notou-o o velho padre, ao observal-os de longe. Erguendo a voz, perguntou-lhe n'um sorriso:
—Que tens, filha? Em que pensas?
E a Maricota, levantando-se de ao pé do noivo, acercou-se da familia e:
—Penso, explicou, que por ser hoje dia de Natal, o sr. padre bem poderia obter para mim a graça de ficar sempre «virgem antes do parto, no parto e depois do parto»...
E voltando-se para o vaqueiro, a sorrir—innocente ou maliciosa? ninguem poderia reconhecel-o, no meio da estupefacção geral,—accrescentou:
—Não deves zangar-te com isso; Jesus foi filho de Deus, e São José não deu o cavaco!