Pelo São João, fizera Maria trese annos; e os paes haviam decidido que a primeira communhão se realizasse no domingo de Paschoa do anno proximo, á missa da festa, na matriz da villa. Padre Constancio, o vigario, andava então a preparal-a, bondosamente. Todas as tardes, mal terminava a leitura de vesperas, no breviario, lá vinha elle azinhagas adeante, caminho da palhoça dos pescadores. Corria a pequena a recebel-o, pés descalços, curto o saiote, a face illuminada n'um sorriso. Sob o cabeção de retalhos, duas pequenas proeminencias desenhavam-se, accentuadas em ponta, de cada lado do thorax. Mas o velho sacerdote, que esses dois delicados pólos parecia haverem um instante interessado, baixava os olhos com perfeita serenidade.

—Como vae essa força? inquiria prazenteiro.

Conversava um momento com o casal caboclo sobre assumptos insignificantes; depois, tranquilamente, vinha sentar-se á porta, ao pé do enorme tamarindeiro, sorvendo uma pitada. E começavam as praticas religiosas.

Maria escutava as explicações do catecismo, os olhos pregados na face do padre, n'essa fixidez conturbativa com que as donzellas innocentes encaram os homens.

Muito calmo, ia o vigario repetindo e commentando as phrases da Cartilha. Acompanhava-o a caboclinha, a meia voz, a seguir-lhe as palavras, n'uma grande concentração reveladora do ardente desejo de conquistar, com as boas graças do clerigo, os biscoitos que infallivelmente annunciavam o termo das prelecções. Depois, noite cerrada já, erguia-se Constancio, esvasiava o bolso da sotaina sobre a mesa do copiar e, com uma palavra amavel para cada qual, abençoava a rapariga e regressava ao povoado, aspirando novas pitadas. Dos dois lados do carreiro, grillos trillavam monotonamente e, por cima dos arbustos cheirosos, tremeluziam com irrequietas phosphorescencias os vagalumes.

*
* *

Uma tarde, mezes depois, havia recolhido a procissão de Ramos. O adro da matriz regorgitava de gente endomingada. Toda a população seguira, ha pouco, o pallio venerando, cujas varas o juiz de direito, o presidente da edilidade, o promotor e o delegado de policia empunhavam orgulhosamente.

Sabia-se já que rebentara na capital o movimento da cabanada. Canôas, tripuladas por valentes remadores, haviam trazido, com innumeros fugitivos, a nova da revolução tremenda. E os pormenores, exaggeradamente relatados pelos brancos, tinham demovido o vigario Constancio e as auctoridades a um redobramento de pompa nas festas da Semana Santa,—a ver se Deus fazia passar a villa immune do ataque dos cabanos.

A tarde caía em doce esvaimento, por traz da floresta. Deslisava tranquillo o rio, espelhando nuvens preguiçosas. Havia por toda a parte o tom suave das côres vespertinas, diluidas na fluidez das sombras incipientes. Apenas do outro lado, na margem opposta, um derradeiro raio do sol enrubescia o areial da praia, sobre o qual um bando de gaivotas revoava, crocitando.

A villa em peso acudira á solennidade, attrahida pelo repique jovial dos sinos. Por entre as portas escancaradas vinham de junto do altar-mór adocicadas emanações de thuribulos; o fumo azulado do incenso evolava-se muito subtil para o alto, como a imagem das aspirações geraes. E as mulheres, lá dentro, oravam contrictas, duplicando as preces ao ceu,—que não viessem os cabanos trazer até acolá as infamias cuja narrativa era bastante para levantar-lhes os cabellos apavoradamente.