[1] Este conto foi escripto em 1886. A donzella de que se trata está hoje casada com o heroe da presente narração e póde gabar-se de ser a mais piedosa, a mais amoravel, a mais querida e a mais leal das esposas... com a vantagem de ser a mais dedicada e meiga de todas as mães.

[II]

Era noite de Natal. Nove horas acabavam de sôar no relogio da varanda. Um socego inalteravel e feliz pairava pela atmosphera da sala, onde a familia estava reunida em grupo aprazivel, ao fundo, em torno do sofá. Das ruas vinham pelas janellas abertas fortes sôpros de brisas cheirosas e sons de guitarras fugitivas, dedilhadas por alegres grupos de transeuntes. A espaços, uma voz, um grito chegava até á sala, revelando que pela cidade havia quem passeiasse, tentando festejar o anniversario do nascimento de Christo.[{37}]

Na sala a conversa era geral. Uma creancita formosamente encantadora sugava a extremidade de um tubo de mamadeira, sobre o cólo de sua virtuosa mãe, a qual, supposto conversar com o extremoso marido, não afastava do rosto da filha os grandes olhos expressivos, fluctuando n'um lago de ternura meiga e immaculavel como um beijo maternal.

Contemplando este quadro rubenesco, João pensava nos santos prazeres do lar,—elle, que era um mísero orphão, um desgraçado pariá do amor!—emquanto Dhalia, a sua querida noiva, sentada junto a elle, falava-lhe compungida ácêrca de uma infeliz mulher que, pela manhã, recebera de suas pequeninas mãos bemfazejas, roupas e sustento para os filhinhos. E dominando a todos, no meio do sofá, com a expressão suavíssima do rosto espiritualisada por um sorriso que venerandamente lhe frisava os labios, o velho Antonio, de cabellos e longas barbas sedosos e brancos, dirigia-se ao filho mais moço, ao Theodoro, aconselhando-o ao trabalho honrado, apontando-lhe como exemplo a seguir várias scenas a que assistira em sua passada vida commercial.

Uma exhalação de virtude emanava d'aquelle grupo: revelavam os rostos a tranquillidade invejavel de quem vive contente com a sorte e depõe muitas confianças no futuro.[{38}]

De repente, n'um silencio entre duas pontas de dialogo, uma voz ergueu-se da rua, fazendo-se acompanhar por uma guitarra:

Folguem todos n'esta noite,
Venha a festa sem egual:
—Hoje em nada se repara,
Porque é noite de Natal.
Hoje em nada se repara,
Porque é noite de Natal.

E a guitarra chorava em tom menor, fazendo côro ao ritornello. A voz de um agradavel tenor prendeu logo a attenção dos que estavam na sala:

Esta noite abençoada
Pertence aos que têm amor;
No presepe bethlemita
Veiu ao mundo o Deus-Senhor.