E começaram então as primeiras melodias da Serenata.
João cerrou os olhos, extasiando os sentidos na audição da formosa peça, tão bem executada pela donzella cuja alma eminentemente artistica comprehendia os segredos de poesia que a musica de Schubert encerra. Uma figura, ao principio fluctuante e indecisa, mas que logo tomou relevo, apparecendo em primeiro plano, desenhou-se na tela da imaginação do moço. E surgiu então um joven de bandolim em punho, debaixo dos balcões floridos de um elegante castello, que se erguia a meio de uma paizagem germanica, onde os robles farfalhavam á borda dos lagos tranquillos, sobre cujas superficies grandes garças deslisavam elegantes, ruflando as[{41}] brancas pennas em donosa magestade. E a voz a'elle era meiga qual um canto magico de yára amazonica, sentida como uma recriminação paternal, doce como um beijo apaixonado. De seus labios côr de papoula distillava-se o mel da musica de Schubert, que ia cair com uma suavidade de balsamo sobre a alma enamorada de uma joven castellã formosa, occulta entre os refólhos das colgaduras das janellas! A voz do amoroso trovador tinha um não sei quê de melancholico, um tal cunho de poesia dolente, que João emocionou-se tanto em face do quadro que a sua imaginação lhe descrevia, que não pôde deixar de cantarolar baixinho, com um meio sorriso, acompanhado pela correcta e sentida interpretação de Dhalia:
"O Châtelaine,
Entend ma peine!.."
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Dhalia executou o morendo final da Serenata. João acordou da sua rêverie, erguendo os olhos para a pianista, em cujo rosto sympathico bailava um risinho engraçado.
De pé, encostado ao piano, estava o venerando Antonio, com o semblante illuminado n'uma expressão de ineffavel ventura.[{42}] Dos labios entreabertos parecia escapar-se-lhe uma benção muda, que se completava pelo gesto das mãos erguidas e espalmadas no espaço!.. Era o pae a abençoar o futuro feliz dos filhos idolatrados!
[IV]
Estava n'este ponto a saudosa recordação do moço estudante, na janella do seu modesto terceiro andar de uma das ruas do Recife, quando o piano da vizinha desconhecida gemia tambem o adoravel remate da Serenata.
João sentiu-se commovido por aquella musica inspiradíssima, que lhe avivára tão grata lembrança de seu venturoso passado,—agora que elle estava ausente do querido sólo natal, onde moravam todos os que possuiam-lhe a flôr do affecto. Ergueu os olhos ao céo, n'uma necessidade de soltar livremente o espirito pela amplidão infinita do vacuo. No firmamento azul tachonado de louras lucilações, o crescente de lua[{43}] vogava para o occaso como uma alegria fugitiva; pequeninos flócos de nuvens seguiam, muito calmos e ethéreos, pelo espaço adeante, projectando sombras cinzentas sobre o calçamento da rua. Da margem opposta do Capibaribe, uma voz de soldado ergueu-se bradando—alerta!—á sentinella.
Então, por um impulso de agradecimento, o espirito de João partiu pelo infinito a fóra, chegou ao Pará, atravessando a cidade, e foi ajoelhar-se piedoso á modesta pedra gradeada que sella o tumulo venerando de Antonio, o estremecido pae de sua noiva.[{44}]
[{45}]