—Não mintas! Eu vi não sei quê!—bradou o sr. Bonifacio puxando-a pelo braço e apoderando-se do objecto.

Era um bilhete. Abriu-o, assestou-lhe os oculos e leu:

"Meu amigo, depois d'amanhã, á meia noite, meu marido vae ouvir a missa do gallo em Sant'-Anna. Finjo-me adoentada para ficar em casa, afim de conversar comsigo e saber d'essa novidade que prometteu contar-me. Venha á 1 hora. Acautelle-se bem; que ninguem o veja.

ELVIRA.»[{52}]

O Bonifacio subiu ao arame; ficou da côr da purpura e sentiu uma violentíssima dôr de cabeça. Teve impetos ardentes de ir assassinar a esposa infiel; reflectiu, porém, e soccorreu-se d'um alvitre que lhe appareceu a subitas no espirito com rubros lampejos de sanguinaria vingança.

—Toma, leva,—disse entregando a carta á rapariga.

E entrou.

Batem as 12 horas da noite de 24 de dezembro. Grupos folgasões de moços d'ambos os sexos passam pelas ruas de Belém em direcção ás differentes egrejas onde se deve rezar a missa do gallo.

O sr. Bonifacio, que levantou-se á ultima pancada das 11 horas, sae para a rua, deixando em casa a mulher incommodada "com muita dôr de cabeça...."