E aquella monstruosidade era de Paula, elle bem a conhecia pelos pequeninos dentes eguaes e perfilados correctamente....

Então, sentindo enormes dôres em todo o sêr, com o espirito prostrado pela emoção violentíssima, Alfredo cambaleou, soluçando, e foi caír á beira do leito, lavado em lágrymas, a murmurar n'um gemido:

—Estou roubado, estou roubado![{80}]
[{81}]

[Poemetos em prosa]

[I
Bidinha]

[A Mucio Javrot]

Aquelles versos terníssimos, d'uma inspiração ideal e faceira, haviam-lhe feito comprehender que o poeta amava-a. Sem o sentir bem, ella começou a amal-o, a amal-o tambem.... Quando, por acaso, encontrava-o em casa da prima, córava, julgava soffrer e gosar a um tempo e entrava a fital-o amoravel[{82}] e longamente, com essa persistencia abstracta dos verdadeiros extases apaixonados....

O poeta conheceu não ser indifferente áquella moça tão pállida, tão triste, cujo olhar tinha os fluidos voluptuosos das paixões ardentíssimas...

E, não sei bem porque, fugiu-lhe: passou um mez sem ir á casa da prima da Bidinha, para não vel-a. Depois, de si proprio envergonhado, lá foi e encontrou-a, mais pallida ainda.... e com os olhos,—aquelles tentadores, faiscantes olhos eloquentes,—mais, muito mais bonitos... Teve pena d'ella: n'um momento em que ficaram sós na sala,—onde rescendia o perfume d'um ramo de resêda posto n'um jarro em frente ao retrato d'uma velha senhora de fronte enrugada e olhar suave—declarou-lhe amal-a desde muito, intensamente.

Ella, a Bidinha, a pállida donna do álbum que recebêra aquelles ternissimos versos, d'uma inspiração idéal e faceira, sorriu, estremeceu e murmurou apenas quasi inintelligivel som.