As senhoras haviam ficado na sala do hotel, aguçando o appetite no bom cheiro de refogado, que lhes chegava da cosinha.
O meu companheiro de passeio era um velhote de 50 annos, grande rosto quadrado,[{10}] de longas suissas grisalhas em faces tostadas pelo sol da America.
Travaramos conhecimento no pequeno tombadilho da lancha que da cidade nos transportara ao Pinheiro.
Ainda não havia duas horas que nos conheciamos, e já grande familiaridade se estabelecera entre nós,—essa familiaridade facil, intima, passageira, das pessoas que viajam.
Estavamos ainda a bordo, e já o meu sympathico companheiro, sentado á amurada, contara-me ser francez, ha muitos annos residente na provincia do Pará, onde tencionava ficar até ao fim da vida.
Sentia-me cada vez mais impulsionado para aquelle sujeito cuja existencia eu ignorava algumas horas antes, e que presentemente, por motivos que eu não tratava de saber, tão vivamente me attraía a curiosidade.
Quando saltamos para terra,—emquanto subiamos pela escada da ponte,—convidei-o para almoçar comnosco, e elle acceitara rindo,—com um riso bonachão de quem é dotado de alma simples, sem duplicidade.
Fôra elle quem me propuzéra aquella excursão á matta, para darmos tempo a que o hoteleiro preparasse a refeição, que eu já prevía frugal e triste, attendendo ás condições da terra em que nos achavamos.
Acceitei-lhe de boamente a proposta, com[{11}] aquella vivacidade alegre de quem vive mezes inteiros encadeiado ao cepo do trabalho quotidiano e toma, de tempos a tempos, um bello dia para descançar um pouco, em a paz d'uma povoação de arrabalde, refestelando-se preguiçosamente na relva odorífera dos nossos grandes e soberbos mattagaes.
E fômos por ali fóra, seguindo um carreiro sinuoso, por baixo de farfalhante cupula de ramos coloridos de um verde-escuro admiravel, cuja uniformidade era quebrada pelo vermelho vivo, pelo amarello e pelo branco das varias flôres sylvestres, cujas pétalas encolhiam-se um pouco, meio-fanadas pelos raios do sol.