Josepha chorava, soluçando, quando ouviu o nome que rematava a carta,—simples linhas banaes, cheias de phrases feitas, possuidoras, comtudo, do grande merecimento de virem de parte da sua querida Isaura.

[III]

Era o dia 13 de maio de 1888. As ruas do Pará tinham festiva apparencia, transbordando de povo rejubilado pelo conhecimento da lei que extinguira a escravidão no Brazil. Cruzavam-se no ar o esfusiamento de grandes girandolas de foguetes e o écco ingente de milhares de vozes bramindo[{125}] enthusiasmadas louvores e vivas em honra ao glorioso successo. Galhardetes e corêtos erguiam-se pelas ruas. Bandas marciaes diffundiam no espaço alegres harmonias de cálidos hymnos excitantes.

Da casa do commendador Pereira de Castro correram para a rua todos os pretos, afim de lhes ser dada a parte a que tinham direito no geral regosijo.

Alguem ficou, todavia, indifferente aos sons exteriores do contentamento publico. Uma preta deixou-se estar na cosinha e espreitava agora para todos os lados, temendo fossem surprehendel-a.

Quando teve a certeza de estar bem só, esboçou nos roxos labios um sorriso espiritualisado e, tirando do seio um velho Paleographo, abriu-o nas primeiras paginas murmurando commovida:

—Vamo' estudá a licção. Nhô Manduca, disse que p'r'ó mez que vem já posso lê a carta da minha filhinha. Quando chega esse dia, meu Deus?

E curvou a cabeça para o livro, na obstinação das grandes vontades vencedoras.[{126}]
[{127}]

[Ao soprar á véla]

[Ao Sr. José Feijó d'Albuquerque]