Ainda não haviam despertado as aves. O rio estava ali muito socegado, reflectindo o mattagal, banhando os aningaes avelludados. Não[{116}] começára o arruido de passaros com que a alvorada é recebida, mas persistiam, comtudo, os derradeiros murmurios dos animaes e insectos noctivagos.
A bordo mesmo, á ré, tudo parecia descansar ainda.
Só o compassado resfolegar da machina denunciava que alguns entes velavam a meia-nau, attentos aos avisos do pratico de quarto.
Ao nascente, começava a desenhar-se uma tenue claridade,—o início do fugaz crepusculo amazonico. A sombria noite diluia o negrume n'um suave frouxel cinzento, muito mal esboçado, indeciso quasi. Estavam longe as meias tintas côr de pérola e lyrio, precursoras das tonalidades rosadas e azues, que a seu turno precedem as estridencias rubras e alaranjadas, em breve esbatidas na tranquillidade definitiva dos[{117}] aspectos mais claros do dia adeantado.
Ia amanhecer.
Em uma porta de camarote, á pôpa, assomara um vulto sombrio de mulher. Esteve ali um momento. Logo encaminhou-se á borda, perscrutando a escuridão, por um lado, por outro, attentamente.
Aquelle vulto vestia um trajo simples, de rigoroso lucto.
Saudou-o da matta um silvo de passaro,—a primeira manifestação do despertar das aves.
O ambiente reacendia. Vinham da floresta virgem aromas capitosos de cumarú e baunilhas. Pelos cipós que desciam dos galhos, formando emmaranhamentos caprichosos, deviam escorrer as preciosas resinas que trescalavam tão fortes effluvios.
A mulher inspirou com[{118}] força. Queria banhar os pulmões n'aquella olencia. Em seguida, suspirou um suspiro triste; suspiro de viuva? suspiro de mãe inconsolavel?