A Coelho Netto

I

Ergui-me com a estrella d'alva, esta manhã.

Oppresso pela atmosphera pesada do aposento, saí logo ao terraço, a receber em cheio na face a brisa que, desde o interior da casa, eu ouvia sacudir valentemente as grandes arvores da floresta, ali perto.

Logo bebi, sôfrego, esse ar embalsamado que enchia o ambiente.[{18}]

Uma alegria sem par empolgou-me o espirito, sem duvida suscitada pela grandiosa belleza circumdante. Embrenhei-me na matta, seguindo uma azinhaga. Começava a amanhecer. Havia no ar esse murmurio das aves que despertam,—bulicio tepido que só podem avaliar os madrugadores na roça,—um como roçar voluptuoso do frouxel suavíssimo que exorna as innumeras legiões canoras do Amazonas.

Não sei o tempo que andei quasi ás apalpadelas, ao longo do carreiro. Interessava-me tanto pelo duplo acordar dos ninhos e das plantas, que só reparei em mim mesmo quando, já dia claro, encontrei-me no cantro de uma bella clareira. Por cima de mim, balbuciava a brisa dulcíssimos rumorejos, agitando as copas verdejantes. Em derredor, porém, era, ás vezes, absoluta a tranquillidade das coisas.[{19}] Por intermittencias, nem mesmo um ciciar de passarinho, ou esse mysterioso, farfalhante correr de lagarto, que parece suscitar não sei que extranhos sobresaltos nas florestas do meu paiz.

Formava a clareira como um salão circular preparado pela natureza para receber-me. E, para que nada faltasse, havia, ao fundo, extendido como um luctador exhausto, um grande tronco secular, que alguma tremenda tempestade derribara. Amplo, coberto do limo que arremedava a fôfa disposição dos estôfos valiosos, esse gigante vencido offerecia-me commodo assento rustico. Entretanto, não utilisei-me d'elle: sentindo-me bem, sentindo-me feliz, estava longe da fatiga. Por insensivel movimento de dominio orgulhoso, apenas puz-lhe o pé no dorso, vencedoramente.

Na mesma occasião, porém,[{20}] penetrou-me o pavor: uma grande ave, um inhambú graciosíssimo emergiu d'entre as toiças de verdura fresca, de sob o tronco abatido e ergueu o vôo para o interior do matto, n'um largo ruflar d'azas com indubitaveis entonações zombeteiras, intoleravelmente escarninhas.

II