Serenou a atmosphera com o advento da Republica. A separação das duas competencias, desde logo feita por acto de 7 de Janeiro de 1890, permittiu a livre expansão das exigencias espirituaes dos crentes.
Nesse ambiente de paz viviam e evoluiam os credos religiosos, quando actos do passado Govêrno da Republica, procurando impedir o desembarque em nossos portos de membros da Companhia de Jesus, expulsos de Portugal, vieram pôr novamente em destaque um dos problemas mais serios, mais graves, mais urgentes e mais descurados de quantos devem occupar as cogitações dos homens publicos de nossa terra: a obra collaboradora da Egreja no desenvolvimento progressivo do Brasil.
A medida, em si, era indefensavel, de ridicula, iniqua e revoltante. Ridicula, por não haver como fazê-la respeitar, tantos e tão faceis os meios de illudir a argucia policial dos incumbidos de reconhecer os jesuitas entre os centenares de passageiros transatlanticos. Iniqua e revoltante, por vir crear, contra o agnosticismo firmado na Constituição Federal, uma forma nova de delicto, crime de crenças e de idéas, causa de perseguição e de desrespeito ás garantias asseguradas a todos os habitantes dêste país e a quantos lhe procuram as plagas. Dobradamente iniqua, si nos lembrarmos de quanto o Brasil deve aos filhos de Inigo de Loyola, e de que á fundação da nacionalidade presidiram, em épochas varias, os vultos augustos de Manoel da Nobrega, Anchieta e Antonio Vieira.
Não basta, entretanto, para condemnar a iniciativa infeliz, allegar sua inconstitucionalidade. Satisfaria tal processo, apenas, aos espiritos afeitos ao judiciarismo estreito, enxergando somente o caso concreto e sua conformidade com as normas vigentes.
Mais alta deve ser a indagação, para que seus fructos provem proficuos. O aspecto social do phenomeno deve sobrepujar ás demais caracteristicas, o fieri de que resulta, os antecedentes que o geraram, as consequencias possiveis. Não é um facto esporadico, de geração espontanea. É um producto de factores seculares, causa, a seu turno, de novos phenomenos universaes, que cumpre analysar.
Como isolar o attimo fuggente, e fixá-lo, especimen de museu, em categorias predeterminadas? Como immobilisar o essencialmente transitorio e passageiro, o que nunca é, e sempre evolve? Seria{27} reproduzir as photographias dos movimentos, dos quaes cada placa revela uma phase e não o conjuncto. Fôra verdadeira libertinagem de espirito, nunca o exame sincero que inspira pensadores.
Na analyse das tendencias, das series a que pertencem os problemas inquiridos, das relações mutuas que originaram; no evoluir dos conceitos; nas necessidades antigas a satisfazer; nos reclamos das exigencias de hoje; nos rumos previsiveis da sociedade de amanhã; nesse complexo de noções, experimentaes ou ideaes, se encontra a decifração, quiçá nem siquer entrevista, do enigma, insoluvel aos olhos de muitos, da vida, tomada em seu conjuncto intrinseco e nas suas relações com o cosmos.
Incomprehensivel e sem remedios se afigura a desordem nas provincias do dominio espiritual onde concorrem, é de esperar que transitoriamente, as confissões religiosas e o Estado: o ensino e, em alguns casos, as convicções determinadoras da direcção politica.
Tal estado de duvida só se manifesta, entretanto, em se encarando os factos isoladamente, sem nexo causal no tempo e no espaço. Cessa a confusão, e aclara-se o horizonte, se os examinarmos do ponto de vista relativo, restabelecida a perspectiva historica na evolução das idéas, das doutrinas e das aspirações.
É, pois, no passado, tambem, que devemos haurir as lições que explicam o facies actual do problema: na antiga constituição das ordens religiosas; nas regras firmadas pelos Concilios; nas luctas do regalismo e do espirito gallicano contra a universalidade da Egreja Catholica, luctas que repercutiram em nossa Constituição Imperial; nos corollarios da separação da Egreja e do Estado, decorrente da proclamação da Republica; no aspecto novo que apresenta desde ahi a formação intellectual e moral das gerações que surgem.