A perduradoura preferencia assim manifestada será a morte da laicidade, si o Estado si não precaver, reorganisando seus methodos didacticos e fazendo surgir no professorado o animo apostolico que creará a alma da escola.

Para tomar uma providencia immediata, que influa desde logo na seriedade do preparo dos alumnos, por que se não subtrairia aos collegios a averiguação de madureza dos seus educandos?{63}

Devidamente comprehendidas as provas de madureza, que não representam uma recapitulação de materias, mas um meio de evidenciar até que ponto se incorporaram e tornaram principios activos na mente e na consciencia dos moços; porque não sujeitar seu julgamento ao criterio de commissões nomeadas pelo Govêrno Federal, extranhas a todos os collegios, perante as quaes os candidatos se apresentariam e exhibiriam suas aptidões? Assim se estabeleceria a unidade de criterio no julgamento do preparo dos interessados; ficaria eliminada a suspeição de lentes, julgando e approvando seus proprios alumnos; despertaria a emulação entre os institutos congeneres.

Seria, para o exame de madureza, a applicação da nossa velha usança dos exames parcellados de preparatorios, tão anti-scientificos quão prejudiciaes, mas que apresentavam o merito da insuspeição dos juizes, além da unidade do criterio julgador.

Dahi proviria ainda a desnecessidade da fiscalisação continua dos collegios com funccionarios por elles retribuidos, sem a precisa auctoridade moral, portanto. Abertas, a quem quisesse se inscrever, as bancas de madureza, nenhuma vantagem adviria da equiparação e cessaria tal industria, que tanta vez especula indignamente á sombra de um malfadado texto legal e da desidia dos Governos.

Outro ponto merecedor de intervenção immediata seria a simplificação dos programmas. Porque sobrecarregá-los com materias das quaes, quando muito, noções deficientissimas poderão ser esboçadas? Porque fingir desenvolvimentos, que não comportam nem o tempo, nem a capacidade receptiva de cerebros de 16 annos, nem o preparo mental obtido no grau inferior, nem as exigencias ulteriores da vida?

É verdadeira improbidade intellectual e moral a falta de correspondencia entre o pomposo programma e o curso realmente leccionado, entre os pincaros collimados e a modestissima restinga em que se installa a aula.

Tem por fim o ensino fundamental, não formar sabios, sim somente jovens munidos das noções precisas para regular a existencia, luctar contra os obstaculos, comprehender seu meio, ser util a si, e a seus similhantes. Porque, pois, fingir nos programmas, ou mesmo na pratica, rudimentos de questões de pura erudição, ou improprias ao destino social, collectivo da média? É obvio o egoismo professoral em{64} casos taes: a ostentação da propria cultura, a par do deleixo da missão espiritual juncto aos educandos.

Observações analogas poderiam ser feitas sôbre o ensino superior, menos opportunas, entretanto, do que as que ficaram notadas sôbre os graus preliminares. Por ora, a lucta intellectual entre o espirito leigo e as normas confissionaes ainda não teve por theatro as faculdades que formam as nossas chamadas profissões liberaes.

Taes observações, tambem, poderiam ser resumidas na falta dêsse pendor especialissimo da alma, que estabelece as correntes de reacção reciproca entre a cathedra e o estudante, esse fluido peculiar, cordial, generoso que sagra educador o expositor da doutrina. Aqui, como no estagio secundario, encontrariamos elementos probantes para, de modo comprehensivo e generico, affirmar mais uma vez que a crise do ensino no Brasil é uma crise moral, a crise da escola primaria.