Desappareceu assim a seriedade com que se entregaram á sua primitiva missão. O ensino ankylosou-se nas formas antigas. Novos methodos surgiam para satisfazer a necessidades novas, e a nada os jesuitas attendiam, mantendo, immutaveis, normas já envelhecidas. Onde os seminarios obedeciam á sua inspiração, a ignorancia do clero avultou. Nem mais o monopolio da instrucção conseguiram manter, e de todo lado surgiam com os novos ideaes pedagogicos, novas escolas, novos programmas.

Phenomeno analogo se notou na economia da Ordem dentro na Egreja, no dogma que defendiam: e viu-se então jesuitas acompanhando o gallicanismo do govêrno de Luiz XIV e escrevendo contra a infallibilidade papal e a supremacia do bispo de Roma. Em 1687, foram condemnadas taes obras a ser queimadas por mãos do carrasco.

Intolerantes em sua missão, quando encontravam concurrentes de outras congregações, despertavam rancores extremos por parte das Ordens mais antigas, ás quaes offendiam e perseguiam, tratando-as com menospreço. Do mesmo modo agiam com as auctoridades ecclesiasticas, baseados nas bullas de Paulo III e seus successores até Gregorio XIV, que lhes asseguravam o privilegio de terem como chefe directo o papa e não dependerem do ordinario local, e lhes conferiam faculdades quasi illimitadas.{11}

Em suas controversias, eram tenacissimos na argumentação e nos meios postos em pratica para fazer triumphar a todo transe suas convicções. Defendendo as theses da Egreja, não conheciam limites a seus esforços. Quando seu ponto de vista discordava da opinião da Curia, sabiam ameaçar e fazer pressão sôbre o Papa, acenando-lhe com a convocação do Concilio Œcumenico. Foi prova eloquente disto a attitude dos jesuitas na sua longa disputa com os dominicanos de Hespanha sôbre a doutrina da graça; avocada a disputa perante a Curia, o Papa inclinou-se para a these dominicana, e os jesuitas tanto ameaçaram que Clemente VIII falleceu, sem ousar contrariar a poderosa Companhia.

Era natural que taes falhas lhes augmentassem o numero de desaffectos, e que, baseados nellas, se congregassem inimigos para mover guerra á Ordem.

Não será exaggero lembrar que no seculo XVII, a opinião da França dictava a lei para a Europa. E nesse país, exactamente, a lucta se desenhou com mais intensidade e maior odio. Não eram somente as congregações rivaes, humilhadas, que revidavam golpes antigos. Eram os adversarios da primeira hora, tambem: o Parlamento e a Universidade—as duas maiores auctoridades no direito e nas letras,—que nunca haviam desarmado e agora renovavam seus ataques.

Era ainda o jansenismo, que os jesuitas haviam perseguido por suas sympathias augustinianas e pêla grande acceitação encontrada nas espheras mais cultas e mais altas da sociedade francesa; era o jansenismo que, por intermedio de Pascal e de Port-Royal, lhes perturbava a vida com fundadas e terriveis criticas moraes e religiosas.

Por mais que a Curia lhes viesse em auxilio, e embora a bulla Unigenitus censurasse officialmente a nova philosophia religiosa, ficou o fermento da analyse, e, em segrêdo, nas almas mais elevadas, um espirito novo ia formulando novas exigencias de vida em uma doutrina que a Companhia porfiava por manter immutavel, rigida e hieraticamente amortalhada nos actos Tridentinos. E era logico e inevitavel assim procedesse, tal a fatalidade de origem e de missão da milicia pontificia creada por Ignacio.

Por sua vez, o influxo protestante, tão cruelmente combatido pela Egreja militante, vingava-se, pondo em confronto seus methodos de{12} ensino e suas possibilidades philosophicas com a escola, já em franca decadencia, dos jesuitas, e a paralysação intellectual decorrente de sua pedagogia.

A par do declinio da Ordem, exaggerando vicios e falhas consecutivos ao abandono da primitiva Regra, alçava-se e fructificava o espirito analytico progressivamente predominante nos meios cultos. E, dentro em pouco, somente o rei e algumas altas auctoridades ecclesiasticas defendiam os jesuitas, formidavelmente guerreados pelos mais puros representantes da intellectualidade e dos sentimentos religiosos da França.