N’este momento, no peito de D. Pedro pulsou mais uma vez a generosidade que sempre foi seu apanagio; e dirigindo-se para D. Filippa, disse-lhe que seria bom chamarem el-rei para a esposa lhe pedir que as terras de que era possuidora se dessem á filha, emquanto não tomasse estado.
Approvada a proposta, sahiu D. Henrique a procurar o pae.
Não tardou D. João I, e ali, perante o leito de dôr da virtuosa companheira, confirmou a sympathica doação, que mesmo sem essa formalidade seria sagrada por todos os titulos.
Foi assim que a Princeza possuiu Alemquer.
No emtanto, cumpria cazal-a como D. Filippa deixava recommendado; e apezar do atrazo material da epocha, a fama dos infantes portuguezes soou por toda a terra. D. Pedro, de todos os filhos de D. João I com certeza um dos mais preclaros, deixava espalhado pelas Sete Partidas quão fructifera tinha sido a influencia de D. Filippa na côrte de Lisboa. O brutalismo da Edade-Media desapparecera em Aljubarrota e o espirito claro da Renascença, (que teve a sua aurora na esposa do rei de boa memoria, e em Nun’alvares, o candido guerreiro; e o seu occaso na infanta D. Maria, a sympathica filha do rei venturoso, e em Camões, a expressão mais pura da nossa nacionalidade) expandia-se illuminado pela figura angelica da rainha que soubera calcar, sepultando-o de vez, o impudor de Leonor Telles. Entreabria-se uma nova era, tendo por promotores a gente mais valorosa que nasceu n’esta terra. Ceuta, a Madeira e os Açores foram os alicerces das emprezas de além-mar; Ceuta, o ultimo golpe do vencedor de Castella, e o baptismo dos seus tres primogenitos; Açores e Madeira, os primeiros padrões da vassallagem do oceano á gente ousada que lhe rasgava o corpo virginal.
Com todo este conjuncto de sublimes predicados, não escasseavam os pretendentes; assim D. Izabel desposou em Bruges (10 de janeiro de 1430) o duque de Borgonha, Filippe, o bom, conde de Flandres.[18]
Digna herdeira das virtudes da mãe, enalteceu o lar domestico com aquella dignidade perante a qual o decorrer dos seculos se curva respeitoso; e mais tarde soube desempenhar com abnegação sublime os deveres do amor fraternal, requerendo a seu sobrinho D. Affonso V o corpo e os filhos do desventurado infante D. Pedro, morto em Alfarrobeira.
Bella aureola a da honra e a da gratidão!
D. Izabel de Lencastre nasceu a 21 de fevereiro de 1397 e falleceu em 17 de dezembro, de 1471.
Sepultaram-n’a na Cartuja de Dijon.