Ill.ᵐᵒ e Ex.ᵐᵒ Sr.

A sua muito obsequiosa deferencia reclama de mim umas palavras para acompanhar perante o publico o livrinho com que V. Ex.ᵃ vem sentar praça n’este batalhão das letras patrias, desmantelado como quasi tudo que é portuguez. Ahi vae satisfeito o seu desejo. Não carecia d’este adminiculo a sua obra, para ser acolhida por todos com a benevolencia devida aos bons intuitos; e que o necessitasse, não era decerto eu o competente para lhe assignar o passaporte da viagem. Estas linhas não são portanto mais do que o agradecimento da sua nimia deferencia para commigo.

Algures diz V. Ex.ᵃ no seu livro que a parte local d’elle está só no titulo. É o que eu sinto. As donatarias de Alemquer são as rainhas de Portugal a que V. Ex.ᵃ, ampliando por vezes os trabalhos de Figanière e do sr. Benevides, escreveu uma serie de biographias summarias. É excellente para provar a mão; e a maneira como deu conta do trabalho prova serem estas paginas as primicias de um escriptor.

Não desanime, portanto. É moço, e tem em si o que vale mais do que tudo: a vocação, a quéda irresistivel para o estudo, e o dom de imprimir fórma communicavel ao seu pensamento. Trabalhe pois; moireje e rumine. Folheie e decifre muito papel velho. Deixe-se arrastar pela curiosidade. Desconfie dos planos geraes e syntheticos, atraz dos quaes muito boa gente se deixa affogar pelo palavriado, julgando descobrir maravilhas. O trabalho mais meritorio é nas letras o do cabouqueiro, por isso mesmo que não dá que fallar. É sómente, porém, esgaravatando rijo no chão, que se encontram diamantes.

Como vê, não o lisongeio. É o triste condão de quem chega á minha edade poder fallar aos moços em nome da experiencia propria. Não me leve, pois, a mal estas curtas observações, que eu não faria decerto se julgasse serem tempo perdido.

Dando-lhe cordiaes parabens pela sua estreia que o publico ha de apreciar, como é dever, consinta V. Ex.ᵃ que me assigne

Seu
M.ᵗᵒ Obr.ᵒ V.ᵒʳ

Oliveira Martins

Casa de V. Ex.ᵃ