Algumas considerações relativas á politica interna dos districtos de Manica e de Tete

Na primeira parte descrevi rapidamente a minha viagem a uma parte da região denominada por Mauch Campos de Oiro do Imperador Guilherme, e indiquei alguns dos resultados directos d'esta viagem.

N'esta segunda parte reunirei algumas informações relativas aos paizes percorridos, e outros que devemos considerar em breve como parte integrante da provincia de Moçambique.

Barue. No relatorio da viagem de Mauch falla este explorador do successor de Musilicatze, do Musila e do Macombe, rei do Barue. Alem d'estes tres grandes potentados só encontrava entre o Limpopo e o Zambeze chefes minusculos dos quaes apenas cita o nome de Schomare (que já sabemos ser Machamare), a proposito da mais notavel riqueza dos seus terrenos auriferos.

O grande reino de Barue, que já tinha atravessado ha annos, quando fui a Manica, e ha pouco quando fui ás terras dos landins, foi agora percorrido por mim em toda a sua extensão, de leste até ao seu limite oeste, formado pelo Caurese e depois mais para o norte pelo Luenha.

Como é sabido, o rio Inhandue, que banha Gouveia, separa n'esta altura o Barue das terras da soberania portugueza. Este rio póde-se considerar como origem do rio Urema, affluente do Pungue. Entrando no Barue os rios principaes, pela extensão do percurso e largura do leito, que encontrei foram successivamente os seguintes: o largo rio Morose, affluente do Inhamapase, que desaguando no canal Mucua se póde considerar ou affluente do Pungue pelo Urema, ou do Zambeze pelo Sangue; o tortuoso Misangase que desemboca no Zambeze, logo abaixo do luane do Prazo Chemba, e cujo leito se atravessa ou segue quasi umas vinte vezes no caminho entre Chemba e Gouveia; o Pompue, affluente do Zambeze a meia altura da linha da praia do praso Chiramba, e o Muira, affluente do Zambeze, no Bandar, isto é, um pouco a jusante da entrada da Lupata. Poderei ainda citar o Mupa, affluente do Luenha, um pouco a jusante da foz do Caurese. Se estes rios ainda tivessem agua corrente em toda a epocha do anno, seria o Barue, no geral da sua area, um dos mais bellos campos que a provincia de Moçambique podesse offerecer á colonisação agricola europea. Infelizmente porém todos os vastos leitos arenosos d'estes grandes rios se acham seccos durante grande parte do anno, podendo-se apenas, e não em todos, obter d'elles agua para beber por meio de covas abertas no seu leito.

Como meios de communicação ou como fontes de irrigação são absolutamente inuteis; encontrando-se, em toda a vasta area a que me refiro, mais facilmente agua em pequenos regatos ou affluentes de affluentes, indo ella sendo absorvida á proporção que se approxima dos largos{19} leitos arenosos. Se o centro do Barue não é em geral cortado por abundantes cursos de agua, os seus limites são quasi todos determinados por caudalosos rios, cujas margens me parecem excellentes campos para colonisação.

N'este caso estão as margens do Inhandue, principalmente as do Vunduse (do Barue), do Pungue ou Aruangua, e ainda apesar da mosca pépsé as do Caurese e Luenha.

Não deve deixar de ser citado o Inhasonha, o importante affluente do Pungue, que esse não limita o Barue, mas corre todo dentro d'este reino, que tem excellente e abundantissima agua e margens adaptadissimas para colonisação branca.

A ultima viagem através do Barue fez-me melhor apreciar a importancia dos serviços feitos por Manuel Antonio, causando-me cada vez mais admiração o ver como um unico homem, pela sua actividade e energia póde, não só resistir ao ataque que o poderoso e sanguinario Macombe fez á Gorongosa, mas depois perseguir este potentado, vencel-o e dictar absolutamente a lei em todo este vasto territorio.