As grandes e poderosas nações da Europa recorreram largamente ao credito para a realisação dos espantosos melhoramentos materiaes que se têem effectuado no presente seculo; com mais forte rasão as colonias dos differentes paizes recorrem ao credito com mais ou menos dependencia das respectivas metropoles, conforme as leis que as regem, e o credito que merece cada colonia. Só as colonias portuguezas fazem excepção.

Terminarei este artigo fazendo algumas citações de uma das communicações apresentadas pelo sr. V. Erskine á Royal Geographic Society de Londres, que se acha publicada no jornal da sociedade, vol. XLV, 1875, unico dos volumes que tenho commigo. Uma das citações seria bem desnecessario fazel-a, porque deverá ter ultimamente sido lida por todos os portuguezes que se occupam de colonias, no livro de s. ex.ª o sr. Andrade Corvo:

«O futuro de Lourenço Marques nas mãos dos portuguezes só póde ser ruina e morte, mas debaixo de uma raça teutonica será o mais glorioso. Que a dominação por uma d'estas raças terá logar, por força ou por diplomacia, não póde haver duvida alguma.» (É extraordinario que estas palavras fossem escriptas ha mais de dez annos.)

«Os portuguezes parecem estar pegados atraz das suas muralhas nos fortes da costa, e não fazem idéa alguma do paiz elevado que lhes fica para o interior.

«Desde a invasão dos zulus os portuguezes nem são temidos, nem{30} respeitados. Tendo apenas soldados pretos, são absolutamente desprezados pelas tribus que os rodeiam.

«Considero este grupo de montanhas onde nasce o Busi como um dos mais interessantes problemas da geographia moderna; pela sua conveniente exploração conhecer-se-iam vastas regiões de paizes sadios, proximos do porto de Sofalla, e se fossem tomados em mão por Portugal e offerecidos a emigrantes por algum modo liberal fazia elle cessar immediatamente todas as difficuldades com os indigenas, e crearia uma origem de riqueza e prosperidade como nunca viu desde o tempo d'aquelles heroes que lhe fundaram o seu imperio colonial, do qual hoje apenas alguns fragmentos lhe restam.»

É assim que pensam os estrangeiros que visitam o paiz; é provavelmente assim que pensam o Gunguneana e os seus grandes; no dia em que sufficiente numero de portuguezes pensar do mesmo modo, a não ser que esse dia chegue demasiadamente tarde, ver-se-ha bem depressa por experiencia como os primeiros que fallaram pensaram bem.

Tendo indicado a distancia de differentes cidades e portos da Africa austral á capital do Musila, diz:

«Os portos mais proximos, Sofalla e Chiloane, são tambem testas das estradas que offerecem menores difficuldades physicas para uma marcha. A planicie que ellas seguem é sadia durante os mezes de julho, agosto, setembro e outubro, de maneira que forças europêas facilmente as podem atravessar n'essa epocha. Grandes rios podem ser seguidos até ás bases das montanhas. De espaço a espaço ha densos bosques, mas podem elles ser evitados, e o caminho seguir sempre como por um parque. Ha pastagens por toda a parte, de maneira que não seria necessario levar sustento para gado.

«Na verdade difficilmente se poderia encontrar um paiz que melhores condições offereça para ser conquistado por europeus; e note-se que, quando se chega ao plateau elevado, tem-se attingido uma região cujo clima é superior ao da Europa.»