*Barcarola*

«Corre, vôa, borboleta, vae graciosa
Libar ondas de nectar delirante
A anémona cingir, o lyrio, a rosa
Com a aza fugitiva, coruscante.

«Vae soffrega d'amor e sê ditosa.
Dá-se no ceu um caso semelhante
Quando estrellas em noite vaporosa
Se abysmam n'uma queda extravagante.

«Vae mariposa, a chamma te fascina
Na aresta do ludibrio, como esphinge
Em deserto d'areia crystallina.»

Callam-se as vozes; picam-se as amarras;
A gondola deslisa e o mar attinge
Ao som dos bandolins e das guitarras.

*Bric-à-brac*

O dono miseravel da locanda
O brocanteur terrivel, sanguinario
Agonisa n'um catre solitario
D'uma alcova minuscula, execranda.

Affinca as mãos convulso n'um rosario,
Ao ceu a vida, supplice, demanda,
N'uma imagem de Christo veneranda
Crava os olhos de abutre, de corsario.

Pois apesar das lagrimas-remorsos
Das victimas do seu medonho trama
Ruins phantasmas de lividos escorços.

Nos paroxismos vende, além da cama,
O Christo a um judeu, e em vis esforços
A alma entrega a Satan, que lh'a reclama.