Os novos modelos estrangeiros não passaram desapercebidos em Portugal a um ou outro amigo da instrucção. O benemerito escriptor Trindade Coelho no seu volume intitulado Pão Nosso—Leituras elementares e encyclopedicas para uso do povo (Lisboa, Aillaud, 1904) inclue um capitulo Arte (pag. 245-256), que abrange a Architectura, Esculptura e Pintura e por fim Monumentos de Portugal, com 14 grav., entrando na ultima secção vistas do mosteiro dos Jeronymos e da Batalha. O unico reparo que devemos fazer a esta tentativa corajosa e benemerita, é a reducção extrema do assumpto a 15 pag., quando em tão limitado espaço apenas caberia uma menção resumida dos edificios notaveis portuguezes sómente e da sua significação historica.

É sob este ponto de vista, n'esta intima relação que deve ser recommendado o estudo dos nossos principaes monumentos aos alumnos dos Lyceus. O professor de historia deve entender-se sempre com o especialista que houver de fazer a exposição propriamente technica e esthetica. E quando digo especialista, sublinho o termo, porque excluindo do terreno o erudito que pode cançar o alumno com uma tarefa excessiva, ponho tambem de parte o curioso, que o enfastiará com banalidades. Só quem conhece um assumpto a fundo é que póde gradual-o em harmonia com o sentir e pensar de um auditorio, cuja capacidade no caso sujeito—o dos Lyceus—deve variar muito.

Os Mosteiros de Belem e da Batalha, a collegiada de Nossa Senhora da Oliveira, os templos de Alcobaça e Leça do Balio, as Sés de Lisboa, Porto e Coimbra, as creações polymorphas de Thomar e Cintra e muitas outras, estão tão intimamente ligadas á vida historica da nação portugueza, que não é possivel ao moderno prelector separar o elemento arte da narrativa do chronista, tanto menos que os antigos escriptores foram quasi sempre de um laconismo desesperador em materia d'arte, e devem ser corrigidos e completados a cada passo, dentro da aula e fóra d'ella, durante as excursões. Temos tido occasião de verificar centos de vezes perante os monumentos, que estes e as suas pedras desmentem os chronistas.

Deve exigir-se pois ao professor de historia dos nossos Lyceus o conhecimento da historia da arte e da archeologia, tanto quanto fôr necessario para a informação dos seus respectivos alumnos. Para elle se habilitar com esse ensino, é forçoso crear cursos livres, sufficientemente remunerados, junto dos Lyceus, para os quaes o Governo deverá chamar os especialistas de merito comprovado.

Até então, terá o professor de historia de contentar-se com a sorte que o poderá favorecer com o concurso de um collega ou de pessoa estranha ao Lyceu, bastante habilitada e intelligente para comprehender o modesto cargo de commentador technico das excursões que revestirem um caracter artistico; bastante enthusiasta e amante da sua terra para pôr em relevo, n'uma demonstração de esthetica pratica, applicada, o que constitue o sentimento do Bello na Arte e o seu reflexo sobre a alma portugueza.

Esse commentario artistico não é, nem póde ser o que se faz no ensino academico aos alumnos que se encaminham para o estudo das Bellas-Artes. É uma iniciação no estudo elementar das fórmas da arte, mórmente na architectura e nas artes decorativas, que d'ella dependem, iniciação para a qual se exige a collaboração assidua do alumno, que deverá levar sempre debaixo do braço o seu album ou caderno de notas, para aprender a tomar apontamentos e a fazer pequenos esbocetos in loco.

Em casa deverá ampliar e completar as notas tomadas segundo um Questionario adequado.

Resumo as minhas conclusões:

1.º O estudo dos Monumentos Nacionaes é necessario no ensino secundario dos Lyceus centraes, pelo menos.

2.º Este estudo não póde realisar-se proficuamente sem um estudo parallelo dos elementos essenciaes da historia da arte.