Quasi sempre estas muralhas foram construidas com pedra miuda, mostrando na face exterior o pequeno apparelho, separado por cadeias de tijolos, e cuja base formada por pedras de grande apparelho deviam já ter servido nos monumentos da architectura, que provavelmente foi preciso sacrificar para lhe aproveitar o material afim de se fortificarem em momento de apuro.
O sabio Mr. de Caumont já tinha ha muitos annos insistido sobre um grande facto, que nenhum historiador indicára, e que ainda ignoram quasi todos, e é a existencia em differentes localidades d'um castrum, cujas muralhas estão em grande parte formadas de cantaria mostrando obra de esculptura dos seculos II e III, taes como os fustes de columnas, frisos, capiteis, tumulos, pedras com inscripções; e por isso o illustre archeologo julgou poder determinal-o como obra dos fins do seculo IV, sendo a execução d'essas fortificações em todos os logares apropriados para tal fim.
Seja como fôr, tendo-se as cidades concentrado cada vez mais, era preciso restringir o perimetro do recinto á parte mais facil para ser defendido, e na possivel extensão com os materiaes disponiveis, cercado de muralhas. Podiamos citar diversos recintos fortificados com 3 a 10 hectares sómente, em quanto essas cidades onde os havia, occupavam antes 100 e até 200, durante o tempo que disfructavam a paz.
No fim de tres seculos de espantosa prosperidade, a Gallia viu, no seculo IV, a desorganisação e o enfraquecimento gradual das instituições romanas. Custa a comprehender a que grande aviltamento chegaram no seculo V.
Um esboço rapido sobre os acontecimentos politicos da Gallia, no quarto quartel do seculo III explicará claramente a marcha progressiva da decadencia das artes do seculo IV. Depois das invasões, a miseria publica augmentou, os abusos mutiplicaram-se, a energia moral diminuiu, as grandes obras da architectura cessaram, e o gosto foi-se alterando cada vez mais.
As artes, para prosperarem, tem necessidade de paz e liberdade: estas condições essenciaes faltaram-lhe no seculo IV; vê-se portanto declinar tanto mais rapidamente quanto os lapsos da paz eram mais curtos e raros.
Todavia, assim como as instituições romanas não desappareceram com a quéda do governo romano, assim tambem as artes trazidas para a Gallia pelo grande povo sobreviveram ao imperio.
«Tal era a robustez da organisação romana, diz Michelet, que, quando a existencia parecia desemparal-a, quando até os barbaros estavam prestes a distruil-a, sujeitaram-se a ella sem o quererem. Foram obrigados, de boa ou má vontade, a habitar sob as abobadas invenciveis que não podiam abalar; a curvar a cabeça e receber ainda por cima, embora vencedores, a lei de Roma vencida.»
O que expressa Michelet com relação ás instituições romanas, poderemos applical-o ás artes, com que o povo-rei dotou a Gallia. Os monumentos em ruinas serviram em breve de modelos aos barbaros que apparecem armados com o facho de incendio. Os barbaros começaram a trabalhar tambem, a edificarem templos, palacios, mosteiros, etc, etc; foram procurar nas tradicções dos antepassados os conhecimentos para repararem as proprias devastações. A architectura gallo-romana, mais ou menos alterada nos seculos V e VI, seguiram seu caminho, até que uma grande revolução, no fim do XII seculo, substituiu por principios inteiramente novos as antigas tradições. É o que nós propomos demonstrar nos capitulos que vão seguir-se.