Há duas casas cobertas por abóbadas em ogiva e de arestas, cujas nervuras nascem tão próximas do chão, a não restar dúvida de que o pavimento correspondente deve achar-se muito soterrado, e de que se levantou outro sobre ele para alcançar o novo nível. Na parede que divide estas casas entre si houve um arco de volta perfeita, tecido de tijolo, cheio posteriormente de alvenaria e que a queda do revestimento descobriu.
Na varanda coberta junta, vê-se o sobrearco de uma antiga porta para as casas abobadadas, cuja soleira deve achar-se bastante funda.
Interiormente veem-se diversas comunicações de casa para casa, que foram inutilisadas ou substituídas.
Depois do primeiro achado admirei-me, como é usual, de não ter dado por outros sinais de reedificações e emendas.
A escadaria que dá entrada para o palácio tinha por guarda uns corrimãos suportados por pilares intervalados com balaústres de mármore branco, e no patamar superior ainda assim é; no médio, porém, formou-se um painel massiço, enchendo os vãos da gradinata de alvenaria revestida de azulejos de relevo, do género que mais abunda na quinta, e em tudo dissemilhante do azulejamento interior do palácio. Ainda aqui há a notar que os azulejos da escadaria são de três desenhos diferentes. No azulejamento da parte superior da quinta encontram-se mesmo espécies de épocas muito distintas.
Esta alteração na gradinata da escadaria não é restauração, mas remendo. Em 1631 ainda todo o corrimão era sustentado por balaústres.
Nas duas galerias sobrepostas que olham a norte, vê-se que o estilóbata sobre o qual pousam as colunas da arcaria superior é de pedra dissemilhante da que lhe fica por debaixo, repetindo-se o facto nos arcos da galeria superior, e dando-se aqui mais a circunstância de não serem de pedra faceada os seguintes, nem terem medalhões de moldura relevada na mesma pedra, como nos seguintes das demais arcarias. A pedra destes arcos e do estilóbata é amarelada, branda e já a esboroar-se, enquanto o mais é calcário rijo e branco, ou mármore da Arrábida, ainda que pouco escolhido.
Parece ter havido aqui grande reparação, em que se não atendeu a todas as partes arquitetónicas. Uma parede de esbarro, reforçando a base da arcaria inferior, vem de ajuda a este suposto. É de crer que estes trabalhos fossem posteriores às obras de Albuquerque.
IX
Num edículo, que encima a porta da entrada do palácio, vê-se um busto de barro de boa execução. As proporções são as naturais. Mostra um varão na força da vida, cabelo sobre curto e cuidado, barba despontada como na época de João III, o rosto oval, o nariz aquilino e a fronte espaçosa, a expressão é clara e de distinta serenidade. Veste de um tecido de malha, virando-se como gola em bicos, deixa o pescoço a descoberto. Do ombro cai até meio braço um adorno do mesmo tecido e também em bicos. Duas largas faias, como pontas de um manto, traçam-se sobre o peito, ligando-se em nós sobre os ombros talvez o diplax dos filósofos. Não faltaram ao busto com os últimos toques, foi trabalho bem tratado, é finalmente um bom exemplar do género. Está ao alcance da vista, mas não permitindo a opacidade do barro bem divisar os pequenos relevos faciais, quer ser tocado com os olhos.