«Senhor, quando esta escrevo a Vossa Alteza, estou com um soluço, que é signal de morte. Nesses reinos tenho um filho, peço a Vossa Alteza que mo faça grande como meus serviços merecem que lhe tenho feito com minha serviçal condição, porque a ele mando, sob pena de minha benção, que vo-los requeira...»[35].
No dia seguinte aquele vulto immenso, aquele génio assombroso, vergado ao peso de uma afronta do rei ingrato, era cadáver.
D. Manuel, quando teve notícia da morte de Afonso de Albuquerque e das suas últimas disposições, tratou logo de lançar mão do seu herdeiro para dirigir a jeito os cabedais, que haviam de advir-lhe.
Era um exímio caçador de heranças este rei, afortunado, distinguindo-se pelo seu faro fino e largo. A casa, que D. João II legou a seu filho Jorge, não lhe escapou para fazer dela compartícipe D.ᵃ Brites, filha do Bragança D. Álvaro; os haveres de Afonso de Albuquerque não podiam deixar de ir a algum da família do rei ou seu apaniguado.
Brás de Albuquerque entrou, por ordem de D. Manuel, no mosteiro de Santo Eloy, a cujos cónegos confiou a sua educação e, para que valesse mais com um nome prestigioso e afamado, fê-lo trocar o nome batismal pelo de seu pai Afonso de Albuquerque.
D. António de Noronha, que foi conde de Linhares, era filho segundo da casa de Vila Real, e Bragança por sua mãe. Não tinha grandes haveres, e desempenhava o cargo de escrivão da puridade. Tinha duas filhas, que necessitavam de amparo. Foi uma destas, D.ᵃ Maria de Ayala e Noronha, a destinada a partilhar a herança do herói da Índia.
Brás, ou antes Afonso de Albuquerque, filho, era já mancebo dos seus dezanove ou vinte anos e, para casar com aquela dama, D. Manuel assinou-lhe um juro de 400$000 réis, e mandou-lhe pagar mais 180.000 cruzados, dos soldos em atraso ao governador da Índia e das quintaladas de pimenta ao mesmo devidas[36].
No ano seguinte, em 1521, Afonso de Albuquerque, ou melhor, o genro do escrivão da puridade de D. Manuel, foi escolhido com fidalgos de boa estirpe para acompanhar a Sabóia a infanta D.ᵃ Brites, filha do rei, casada com o duque Carlos, e teve o comando de um galeão de duzentos e trinta tonéis. O conde de Linhares ficou encarregado de alcançar na pessoa de seu genro a satisfação dos altíssimos serviços de Afonso, o Grande.
A infanta tinha-se recebido por procuração em Lisboa, no dia 7 de abril de 1521, mas só no dia 10 de agosto a frota que a conduzia saiu a foz do Tejo, fundeando em Nisa, porto do seu destino, no dia 29 de setembro.
A entrada pública da princesa na corte só se realizou em maio do ano seguinte; a oficialidade e fidalgos da armada, durante aquele espaço, faziam excursões pela Itália, e Albuquerque teve ocasião de se ilustrar, visitando diversas cidades daquele país fadado para as artes.