O palácio com seus jardins constitui um verdadeiro museu de todas as espécies de faianças que se podem imaginar. Encontram-se ali o azulejo unicolor servindo para decorações no género munífico, o azulejo liso com ornamentos multicolores, o azulejo lustrado (estampado em relevo) à maneira dos espanhóis, os azulejos formando quadro simbólico, histórico ou mitológico, o medalhão à maneira dos de Luca della Robbia, de baixo ou alto relevo, de terra cota simples, ou colorido, ou esmaltado, com festões de frutos, ou simples grinaldas de folhas.

A galeria do lado ocidental do palácio, que dá para o jardim, tem revestimento de azulejos até à altura de 1m72. No meio de um desenho em azul, amarelo, verde maçã e castanho, sobre fundo branco, com friso de ovados, veem-se personificações dos rios Mondêgo, Nilo, Danúbio e Douro com ricas bordaduras, tudo obra de mão de verdadeiro artista e de inexcedível brilho e magnífico efeito[69].

Os pavilhões do jardim, as paredes e as galerias do lago artificial, no canto sudoeste daquele, são igualmente providas de ricas decorações em azulejo. Até os bancos e os alegretes das flores são revestidos de azulejos, posto que alguns destes mais simples e unicolores, formando uma espécie de mosaico. Os azulejos, que ornam as colunatas do lago são verdes com ornamentos de lustre, estampados em relevo cavado. No centro de uma destas paredes encontram-se as armas dos Albuquerques igualmente em azulejo. O pavilhão central, dos três situados no lago, tem não só azulejos de desenho ornamental, mas também três quadros figurais notáveis pelas suas formas e pelas suas cores. Um representa o rio Tejo, outro Suzana no banho. No fundo deste último quadro vê-se um palácio, em cujo pórtico se acha inscrito o ano de 1565. As chapas de terra cota (azulejos) que cobrem as paredes deste pavilhão estão colocadas com os cantos para baixo [<>], excepto os ladrilhos dos quadros, cujas juntas são verticais e horizontais. A colocação especial dos azulejos motivou uma mudança agradável do desenho, sendo ainda aumentada pelo emprego de azulejos de desenhos diferentes.

Apresento no caderno 4.º um dos desenhos unicolores daquele pavilhão.

Toda a parede a oeste do lago, com a sua extensão de cerca de 30 metros e com a sua considerável altura, é coberta de azulejos verdes em baixo relevo, de muito valor artístico[70]. Um Neptuno lançando água, nichos e medalhões em relevo alto servem para dar mais vida ao extenso quadrângulo. O diâmetro dos medalhões é de 54 centímetros, com as grinaldas de flores e frutos de 78 centímetros. O muro sul do jardim, costeando o caminho do palácio para o lago, tem doze medalhões de baixo relevo, correspondendo a outras tantas pirâmides colocadas no alto do muro. Os relevos representam heróis da antiguidade, Alexandre, Cipião, César, Aníbal e outros. O conjunto de toda esta construção representa obra de mestre, de um arquiteto talentoso bem certo do efeito desta maneira decorativa.

Portugal é rico em ruínas grandiosas, muito pitorescas e, pela maior parte, desconhecidas no estrangeiro, como os castelos de Obidos, Leiria, Tomar e Palmela. Do último ainda se levantam ao belo céu azul as colunas isoladas de alguns arcos, e ali encontrei magníficas decorações de azulejos muito bem adaptadas às largas dimensões da igreja. Azulejos isolados, tais como se encontram nos museus da arte industrial, quase sempre de origem espanhola, não podem dar senão uma ideia muito imperfeita da magnífica harmonia e da arte genial com que os azulejos naqueles tempos foram aproveitados para a decoração. Na estampa junta vê-se o sistema de desenho empregado por cima das janelas e entre as colunas dos arcos.

A estampa, em cores, deste caderno apresenta o detalhe do desenho formado de dezasseis ladrilhos. Este desenho, como a sua roseta central, lembra alguma coisa os modelos romanescos, que provavelmente ainda se conservavam tradicionalmente nas oficinas e que, nesta igreja de caráter romão dos tempos da Renascença, estão muito no seu lugar. Os frisos, porém, pertencem à Renascença pura, sendo pela maior parte formados por filas de folhas. A mesma estampa mostra uma parte composta de dois azulejos. Todos os ornatos mostram as mesmas cores, azul ou amarelo, contornados de azul sobre fundo branco, sendo não raras vezes o fundo enchido com a cor suplementar, o que faz aparecer o ornamento em branco.

O mesmo desenho de azulejos encontra-se em alguns outros edifícios do país, por exemplo na catedral de Portalegre, no Alentejo, fundada em 1565. Mas o sistema da composição dos azulejos é sempre variado, sendo deveras surpreendente a diversidade de desenhos que se podem arranjar com os mesmos ladrilhos. É claro que para isso se precisa uma mão experimentada, sendo especialmente difícil o fecho dos cantos. Os operários daqueles tempos tinham um exame especial com respeito ao assentamento dos azulejos.

A catedral de Portalegre, cuja torre teve a cúpula revestida de azulejos, contém no seu interior ainda muitos outros desenhos bonitos e notáveis de azulejos, como o representado no caderno 4.º. O artista desenhou uns retângulos e serviu-se apenas do azul e do amarelo, mas aplicando estas cores tão bem com respeito ao espaço que ocupam que, longe de parecerem desarmónicas, exaltam o efeito uma da outra[71]. O desenho da fita é também tirado daquela igreja.

Do século XVI existem ainda muitos azulejos lisos em Portugal; estampados em relevo encontram-se no convento da Pena e no palácio real de Sintra. As chaminés gigantescas deste último, que antes parecem pagodes da Índia, eram ornadas de azulejos estampados, desenhados por Duarte de Armas, pintor do rei D. Manuel.