O trajecto é um encanto, e muito mais apreciavel por barca e caminho de ferro, a galgar as encostas e contrafortes da Serra dos Orgãos, do que só por terra. No percurso de uma hora, em barca, o observador tem occasião de extasiar-se perante as bellezas naturaes da amplissima Guanabara, salpicada de encantadoras ilhas e ilhotas e circumdada de montanhas ridentes, onde as projecções solares aureolam deslumbrantes panoramas.

Desde o portosinho de Mauá que a paisagem muda, por completo, e então o comboio, como uma fita cinematographica, deslisa por entre vegetação luxuriante, realçada por gigantescos e formosos ramalhetes de flôres, que corôam os cimos do arvoredo, e por onde lindos colibris, reflectindo todas as côres da nuance universal, adejam a formosura da natureza e os esplendôres divinos.

O trem pára na estação da Raiz da Serra, muda-se de machina e entra-se n’aquella biblica região de primôres e de delicias que os nossos primeiros paes trocaram por uma simples e saborosa maçã.

A opulencia vegetativa passa a segundo plano. É a téla que sublima a belleza do céo e o deslumbramento do sol e que além, nos esplendorosos limites do horizonte, põe termo ao assombro da nossa retina e ao supremo encanto da nossa alma.

Descrever os innumeros e maravilhosos panoramas que a subida da Serra proporciona ao nosso espirito, é sublimidade que, por sobrehumana, só aos arroubos do genio é permittido attingir.

Percorrem-se, na cidade, as avenidas ladeadas de bellas vivendas no meio de formosos jardins e suavisadas pelo deslisar de limpidas aguas; vae-se á Cascatinha, sitio encantador e votado ao mais criminoso olvido; contempla-se e admira-se o ineffavel amplexo da excelsa natureza a povoação tão amimada de primôres; e como se de páramos celestes caissemos em infectado pantano, o nosso espirito divaga da grandeza divina ás miserias humanas.

Os buracos das ruas e a lama que os occultam, o capim que começa a invadir os proprios passeios abandonados pela incuria official; frontarias sujas; edificações que se não completam e outras que ameaçam ruina; tudo isso revela, ao forasteiro, quão monstruosa é a inepcia e vergonhoso o desleixo de quem assim trata uma localidade que é um primôr de situação topographica e a residencia dos representantes dos povos nossos irmãos e collaboradores na evolução ascencional para o Progresso e para a Luz.

O brio, a dignidade nacional, o simples criterio e bom senso exigem a conservação e o aperfeiçoamento material de Petropolis.

Conviver, no meio de um charco, com as summidades diplomaticas que, no Brasil, representam as nações civilisadas de todo o mundo, é provar-lhes que a nação prefere a economia de alguns vintens á subida honra de dignamente fraternisar com os povos que a distinguem com a sua presença e amisade. E um charco será Petropolis, em poucos annos, se continuar a incuria e o abandono das auctoridades brasileiras.

Não é acceitavel o argumento de que a municipalidade não dispõem de recursos financeiros.