Examinada, todavia, em detalhe, conclúe-se pela monotonia e ausencia da esthetica, n’esses arruados demasiadamente longos e estreitos, que fatigam a vista e a imaginação, a não ser que procuremos rapidamente um derivativo e um refrigerio na avenida e praça de Mayo, ou no parque de Palermo.

Rio de Janeiro, visitada n’estes ultimos tempos, produz o effeito de reconstrucção civica, após medonho cataclismo. Não obstante estarem já concluidas soberbas avenidas e transformados, para melhor, numerosos arruados, na maioria dos bairros continúa, activamente, a substituição da cidade colonial por outra mais digna da grandiosa nacionalidade que representa e dirige.

Exteriormente, o aspecto geral do Rio de janeiro, arrabaldes e suburbios é não só superior, em extensão e belleza, ao de Buenos-Aires, mas tambem ao de quasi todas as metropoles do globo; interiormente, porém, somos forçados a dar a preferencia á capital porteña, pelo seu feitio completo, internacional, europeu e pela assombrosa animação das suas arterias publicas, do seu commercio e de todas as manifestações da actividade humana.

Monumentos—Caracteristicamente monumental, nenhuma das duas capitaes é; em ambas predomina ainda o mestre de obras a fazer casas sem arte, estylo nem gosto. Quando apparece, raramente, o architecto a manifestar-se em frontarias classicas e em detalhes interiores e artisticos trata-se, geralmente, de edificios do Estado ou de grandes empresas do commercio e da industria. Não ha muitos annos que, n’uma e n’outra capital, as casas, em geral, não passavam do segundo pavimento, o que explica-se, em parte, pela abundancia e barateza do terreno edificavel. Hoje, que elle vae escasseando e encarecendo, que as populações são mais numerosas e outras as condições da vida civica, os andares accumulam-se uns sobre os outros, apresentando as arterias publicas mais imponente aspecto. Rio de Janeiro não possúe um Congresso Nacional nem um Palacio de Justiça, monumentos grandiosos em qualquer dos maiores centros da vida terraquea; mas e em compensação, Buenos-Aires não encerra coisa que se pareça com a Candelaria, precioso escrinio monumental e artistico. Os outros santuarios fluminenses são ainda superiores aos da capital argentina, á excepção da Cathedral. S. Bento e S. Francisco da Penitencia reflectem, deslumbrantemente, o ouro e a arte dos tempos coloniaes, em que as energias moraes, physicas e economicas eram consumidas a celebrar a gloria de Deus e a da sua côrte celestial. Quanto a estatuas e a grupos artisticos, as praças e os parques das duas metropoles estão egualmente guarnecidos e ornamentados em numero e qualidade. Temos, pois, que em monumentos religiosos a superioridade pertence ao Rio de janeiro, e em monumentos civis, ou profanos, a Buenos-Aires, não obstante a monumental decoração da Avenida Central, e os edificios publicos e particulares que, na capital fluminense, ostentam, aqui e alli, as suas imponentes frontarias.

População—463:453 homens e 347:990 mulheres, eis os numeros officiaes da população fluminense, em 20 de Setembro de 1906, data do ultimo recenseamento. Total 811:443 habitantes. 16 annos antes, em 1890, os habitantes do Rio de Janeiro eram 522:651, havendo um augmento de 288:792 individuos. Este censo abrange as duas zonas, urbana e suburbana, subdivididas em 25 districtos municipaes. A densidade da população, na zona urbana, é de 3:928 habitantes por kilometro quadrado, e na zona suburbana, apenas de 191.

D’aquelles 811:443 moradores do Rio de Janeiro 600:928 eram brasileiros, e 210:515 estrangeiros; 195:880 solteiros, 214:730 casados e 52:704 viuvos. Dos restantes não se conhecia o estado civil. Sabiam lêr 260:941 homens e 160:131 mulheres; eram analphabetos 202:512 homens e 187:859 mulheres; total 390:371. Existiam 50 homens e 128 mulheres com mais de cem annos de edade.

Hoje, a população do Rio de Janeiro, arrabaldes e suburbios, é computada em 900:000 habitantes.

Em Buenos-Aires, no mesmo periodo de tempo em que foi feito o recenseamento official da população da capital brasileira (setembro de 1906) havia, tambem officialmente recenseados, 1:084:113 habitantes.

Dois annos antes, o censo déra o total de 950:891 almas, das quaes 497:839 homens e 453:052 mulheres; 523:041 argentinas e 427:850 estrangeiras.

Em 31 de Março de 1908, a população de Buenos-Aires era, officialmente, de 1:140:377 moradores, que n’este momento poderão computar-se, sem exaggêro, em 1:200:000. Só as cidades norte-americanas, e não todas, podem competir com a capital argentina em rapidez de augmento de população, o que explica-se, principalmente, pelo movimento immigratorio. Só no mez de Março de 1908 entraram no porto de Buenos-Aires, 309 embarcações com 31:846 passageiros, dos quaes 12:330 eram immigrantes. No anno de 1906 entraram 419 embarcações, transportando 419:024 passageiros, dos quaes 114:889 eram immigrantes.