Historia—É egualmente gloriosa para as duas primeiras capitaes sul-americanas, a historia da sua fundação. Gonçalo Coelho e Pedro de Mendoza, militares de alta patente, o 1.º almirante e o 2.º governador militar, ou adelantado, foram os primeiros europeus que pisaram o solo onde, mais tarde, deveriam ser fundadas as soberbas metropoles que nos occupam. O adelantado foi mesmo o fundador da primitiva cidade de Buenos-Aires, cujo nome provem da exclamação do seu subordinado, o capitão Sancho del Campo, ao saltar em terra:—Qué buenos aires son los de este suelo!

A hostilidade dos naturaes e a falta de recursos pelo esquecimento e abandono da metropole, não permittiram que prevalecêsse a obra do governador hespanhol, e cinco annos após a fundação, a localidade era abandonada, para só reviver 39 annos depois, sob o genial impulso de Juan de Garay.

O almirante portuguez continuou a sua derrota para o Sul, limitando-se a baptisar falsamente, com o nome de Rio de Janeiro, a bahia de Guanabara, na supposição de que fôsse a foz de um grande rio. Foram os francezes, vinte e seis annos depois da visita de Gonçalo Coelho, os primeiros europeus que se estabeleceram nas margens guanabarinas, em 1528, e só em 1531 appareceu Christovão Jacques, enviado por D. João III, a desalojal-os. Reincidiram os gaulezes, por varias vezes, até que definitivamente os expulsaram Mem de Sá e seu sobrinho Estacio de Sá, em 20 de Janeiro de 1567. Já então e desde 1565, estava fundada por Estacio de Sá, a cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro, entre os morros da Babilonia e da Urca, no porto de Martim Affonso. O fundador morreu dos ferimentos recebidos na batalha de 20 de Janeiro, e o seu tio Mem de Sá transferiu a recente povoação para o morro do Castello, mais defensavel dos inimigos.

Ambas as cidades foram baptisadas em sangue e nasceram do espirito de aventura e da ambição do mando, causas do impulsionamento dos extraordinarios feitos que desenvolveram a civilisação e o progresso da humanidade, ao mesmo tempo que davam logar a contendas armadas e ao odio entre povos, sedentos de riquezas, de poderio e de vingança.

No Rio de Janeiro, como em Buenos-Aires, a cruz estabeleceu-se á sombra da espada, e no terreno onde os capitães traçavam perimetros civicos com a ponta das espadas, fincavam os monges as bases da sua grandeza no dominio das consciencias e na exploração de bens materiaes e da ignorancia popular. Foi preciso que os abusos attingissem a meta da paciencia humana, para que se manifestassem as energias dos dois povos, retemperados no trabalho e no soffrimento, aquecidos por esse bello e fecundo sol da America, que só resplende para aureolar a Liberdade e cujo occaso é a imagem da tyrannia, mergulhada nas trevas da maldição universal.

O 25 de Mayo de 1810 e o 12 de Outubro de 1822 fôram, em Buenos-Aires e no Rio de Janeiro, os primeiros passos dados na senda gloriosa dos brilhantes destinos de argentinos e brasileiros. Fundada 15 annos antes da sua rival, só 12 anos depois conseguiu a capital do Brasil emancipar-se do jugo da metropole, como só 79 annos depois de Buenos-Aires e da Republica Argentina, entraram Rio de Janeiro e o Brasil na orbita das capitaes e das nacionalidades que gravitam e expandem-se livremente, illuminadas por instituições democraticas, cuja base firma-se na liberdade, no trabalho, na instrucção, na justiça e no amôr.

Eis o que explica o atraso da capital brasileira em relação á argentina, quanto ao desenvolvimento material e ao caracter de internacionalisação. Essa differença, porém, desapparecerá em poucos annos, a continuarem os patrioticos esforços desenvolvidos desde a proclamação da Republica dos Estados Unidos do Brasil. Em vinte annos a esta parte, Rio de Janeiro tem conquistado quasi tudo quanto lhe fizeram perder os 257 annos de sujeição colonial e os 67 annos de marasmo imperial.

Por seu lado, Buenos-Aires não estacionará na actual expansão, continuando as duas grandiosas capitaes a dar ao mundo o glorioso espectaculo de uma rivalidade que, para honra de ambas e da civilisação universal, jámais ultrapassará os limites contidos na ambição maxima pela paz suprema.

Assistencia Publica—No Rio de Janeiro funccionam os seguintes hospitaes: