A campainha tocava dentro; a orchestra principiava a desenrolar harmonias.
—Ao chinfrim, rapazes, ao chinfrim.—
Os espectadores entravam retardatariamente, n'uma linha obliqua, caminhando de lado.
Os córos desafinavam o mais possivel, n'um compromisso funesto de enterrar a partitura. Via-se o regente gesticular, n'uma agitação febril, a batuta n'um voltear vertiginoso; um rumor surdo{140} sahia das torrinhas, prenuncios de tempestade na plateia.
—Vai ahi haver um chinfrim medonho—disse o Alberto no camarote.
—Se nós nos retirassemos!...
—Ora deixa-te de tolices, tinha graça perder o melhor do espectaculo!—e voltou-lhe as costas, a vista medindo a força numerica dos pateantes, e a sua força qualitativa.
Depois os olhos volviam-se-lhe obstinadamente para o camarote d'Annita; tomava do binoculo observando-a ainda uma vez, approximando-a de si por meio d'aquella illusão d'optica, o pensamento revolvendo-se no leito de Procusta do seu passado.
—Só... mas hei-de sabel-o,—murmurava—o Juca sabe tudo, elle ha-de saber isto; é impossivel que o não saiba.—
Annita tinha-o visto logo ao chegar; um escandecimento de sangue subira-lhe nas faces, um desejo instinctivo de o descompor, de lhe chamar pulha, ali, naquelle mundo que o conhecia, em frente d'aquella mulher que era d'elle, um escandalo enorme, de que todo o Porto falasse.